Pensatas & paixões

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Pensatas 25 / 11 / 2016| Pablo Nunes

Recado da Cidade de Deus

Pablo Nunes, pesquisador do CESeC, acompanhou o protesto de moradores da Cidade de Deus na quinta-feira (24/11) e relata a indignação da comunidade contra o uso de mandado de busca coletivo nas ações policiais.

Fotos: Pablo Nunes

Tarde nublada no Rio de Janeiro. Depois de algum tempo afastado, refaço o caminho para chegar a Cidade de Deus. Meu relacionamento com a favela sempre foi muito próximo: durante 25 anos morei na Freguesia, bairro da vizinhança. Por meu pai e minha tia terem morado por bom tempo nessa favela, era costume passar Natal ou Ano Novo com eles. Na Cidade de Deus vi os primeiros retratos da violência. A feira tradicional possuía, além das barracas de frutas e verduras, um estande de venda de drogas improvisado com caixotes. Recordo também que foi lá onde vi a primeira arma de perto. Quem segurava essa arma era uma criança, menor do que eu à época. Devia ter por volta de 12 anos de idade. Depois de ter presenciado essa cena, diversas perguntas permaneceram na minha mente e de certa forma permanecem até hoje. Naquela época eu não sabia que quando eu crescesse iria me dedicar a tentar entender um pouco mais daquelas imagens que me incomodaram tanto.

Voltei a frequentar a favela semanalmente em 2014. Na época, estava participando de uma pesquisa sobre os impactos no cotidiano em duas regiões com Unidades de Polícia Pacificadora, a da Cidade de Deus e a do Morro dos Cabritos/Tabajaras. Por cerca de sete meses conversamos com diversos moradores e lideranças locais, participamos de eventos, assistimos inclusive a jogos da Copa do Mundo no Brasil em um bar da favela.

Esse histórico de proximidade me faz acompanhar o que acontece na região, sejam confrontos, sejam eventos como a FLUPP, que ocorreu no início do mês. Por meio de uma página no Facebook, fiquei sabendo que lideranças estavam organizando uma manifestação em resposta aos recentes confrontos ocorridos na favela durante o final de semana. Era uma oportunidade de ouvir diretamente os moradores, além de prestar minha solidariedade e somar minha indignação à deles.

Pontualmente às 16h, moradores começaram a se reunir na principal praça da Cidade de Deus. O grupo ainda era pequeno, mas já era possível ouvir diversas histórias de indignação e ressentimento pelas últimas violações sofridas pela comunidade.

No último sábado (19/11) os moradores vivenciaram o que - nas palavras deles - foi a pior operação policial ocorrida na Cidade de Deus. Foram mais de 11 horas de confrontos entre policiais e traficantes da área. O conflito se concentrou em uma área chamada “brejo”, que faz jus ao seu nome, e se localiza aos fundos do condomínio construído pelo programa Minha Casa Minha Vida. Toda essa área é chamada de Karatê, ou KRT, abreviação normalmente utilizada nas pichações que dominam o local. Essa é a localidade em que se concentram os mais pobres da Cidade de Deus. E também onde se concentra a violência.

Eliane mora no Karatê há 52 anos. Há cerca de um ano, recebeu as chaves para um dos apartamentos do condomínio do programa Minha Casa Minha Vida. Ela acordou cedo no sábado, começou a realizar suas tarefas domésticas e telefonou para sua filha, também moradora do condomínio. Descobriu que ela havia saído para comprar uma bomba de água (a falta d’água tem sido um problema constante dos moradores da região) e deixado seus filhos no apartamento, aguardando o seu retorno. Ao mesmo tempo em que Eliane se despedia da sua filha, viu pela janela que grupos de policiais haviam se reunido nas proximidades do condomínio. Ficou desesperada. Quando há concentração de policiais na favela é sinal de que uma operação está prestes a acontecer.

Desceu correndo as escadas para alcançar o andar do apartamento onde estavam seus netos, e ao mesmo tempo em que descia, ligou para sua filha avisando do perigo. No caminho até o apartamento, pode ver diversas portas de outros moradores, arrombadas pela polícia. Com a indignação no olhar, ela me disse: “Essas portas foram arrombadas no sábado! Eles não tinham esse mandado da juíza. Tudo aquilo que eu filmei foi antes do mandado! Eles não tinham esse direito!”.

Agachou com seus netos na sala, protegendo-os dos tiros que vinham dos traficantes, dos policiais, dos blindados e do helicóptero que sobrevoava a favela, Eliane não conseguia entender como aquela ação era uma operação da polícia e não um assassinato em massa. Ela via que o helicóptero sobrevoava a região, localizava os traficantes dentro do brejo e passava a localização para o blindado da PM, que em seguida soltava uma rajada de tiros no ponto informado pela “águia”: “Como isso é operação!? A polícia tinha que prender e não matar assim!”, ela questionou.

As horas de confronto se estenderam e ela pode ouvir vozes gritando “socorro” vindas do brejo. Assim que a troca de tiros naquela região cessou, ela e outros moradores foram pedir permissão aos policiais que ainda estavam na área para poderem retirar os corpos e os feridos. Nesse momento também conseguiram evitar a execução de um jovem. Sim, nas palavras dela, execução. O jovem já estava rendido, com apenas um rádio transmissor na mão, e estava sendo levado por dois policiais para dentro do brejo. O caminho dos policiais com o jovem foi interrompido pelos moradores, que acusaram os agentes de querer matar o menino. Alguns começaram a filmar os policiais, prometendo que se aquele jovem fosse morto, seus rostos iriam estampar as capas dos jornais. No dia seguinte à operação, foram retirados sete corpos do brejo.

A operação do sábado teve seu ápice de tensão na queda do helicóptero da PM. Quatro policiais que estavam a bordo da aeronave morreram. As cenas da queda do helicóptero relembraram o caso ocorrido no Morro dos Macacos em 2009. Assim, foi rápido observar que, tanto nos jornais quanto nas redes sociais, a culpa pela derrubada e, consequentemente, pela morte dos quatro policiais recaiu sobre os traficantes da Cidade de Deus. Posteriormente, em uma perícia preliminar, ficou comprovado que nem o helicóptero e nem os corpos dos agentes possuíam marcas de tiros.

E mesmo que houvesse, os moradores da Cidade de Deus estavam naquela manifestação dizendo para o governo que um helicóptero derrubado não os pode sujeitar as violações de direitos que se seguiram. Nas faixas carregadas, agora por um número mais expressivo de moradores, podia-se ler: “100 mil moradores não podem pagar pela queda do helicóptero!”; “Somos CONVIVENTES e não CONIVENTES”. Em outra: ”As favelas não podem pagar pela crise do estado”. No caminho por uma das ruas principais da favela, a Edgard Werneck, os moradores cantavam “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”, funk clássico que demonstra que a indignação dos moradores de favela tem origem na histórica violação de seus direitos.

Ao chegar à sede da Unidade de Polícia Pacificadora, a passeata parou. Os manifestantes exibiam os cartazes aos policiais e gritavam por justiça e por paz. Havia mais policiais do que manifestantes na Edgard Werneck. Um grupo de 20 policiais seguia de perto a manifestação a pé e mais outros grupos se dividiam nas motos e nas viaturas. Mesmo assim, os moradores não pareciam incomodados com o fato de que cada um dos policiais que acompanhavam a passeata carregava um fuzil na mão. Além da companhia dos policiais a pé, cerca de dez motos e seis viaturas acompanharam os manifestantes, que se dirigiram para a entrada da favela.

Quando o grupo se aproximou da Linha Amarela, podia- se ouvir os gritos: “Vamos ocupar!!”. Em outras manifestações em que os moradores ocuparam a via expressa, uma das mais movimentadas da cidade, o desfecho foi muito violento. Em algumas passeatas houve a construção de barricadas e queima de ônibus, cenários que as lideranças quiseram evitar a qualquer custo. Assim, eles decidiram terminar a manifestação em frente aos Apês, região muito conhecida e uma das mais antigas da Cidade de Deus . Em direção ao destino final, os manifestantes gritavam “Au au au, pé na porta do Cabral! Iza iza iza, pé na porta da Juíza” e “Sem pé na porta! Sem esculacho!”. Claramente, o recado era: nós queremos igualdade de direitos. Como disse um dos moradores a um jornalista: “Por que a polícia quando foi pegar o Sérgio Cabral não invadiu e arrombou os apartamentos dos vizinhos dele? Por que só aqui na favela eles agem assim?”.

Já em frente aos Apês, novos cartazes foram se agregando ao grupo. O número de moradores reduzido que fechou a rua no início da passeata, já era suficiente para fechar uma avenida, se assim quisessem. Unindo as mãos em um grande círculo, eles cantaram “Cidade de Deus é o maior barato/E te pergunta, brigar pra que?”. No final, uma cena chamou a atenção dos fotógrafos que ali estavam. Duas crianças negras seguravam um cartaz de cartolina onde se lia em letras verde-neon: “CDD pede paz”.

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