Reportagens

  • Compartilhe:
Refugiados 13 / 01 / 2017| Saulo Pereira Guimarães

Ano novo, vida nova

Aulas do intensivo de verão do Abraço Cultural começam na próxima segunda (16). Com nove professores oriundos de Congo, Gâmbia, Síria e Venezuela, curso de idiomas dá a refugiados oportunidade de recomeçar a vida na região metropolitana do Rio

Foto: Tecidos expostos em evento do Abraço Cultural com refugiados africanos (Abraço Cultural/Facebook)

Ano novo, vida nova. O ditado tem um significado especial para os refugiados que tentam recomeçar a vida na região metropolitana do Rio. Entre as diversas iniciativas que existem para ajudar quem se encontra nessa situação, uma em especial chama atenção. Trata-se do Abraço Cultural, curso de idiomas no qual os estrangeiros são os professores. Com aulas marcadas para começar na próxima segunda (16), a edição de verão da iniciativa está com vagas esgotadas desde o último dia 9. Nela, nove refugiados de Congo, Gâmbia, Síria e Venezuela ensinarão a 70 alunos noções básicas de francês, inglês, árabe e espanhol, respectivamente.

No total, o curso terá carga horária de 40 horas. As aulas acontecerão de segunda a quinta, de 19h às 21h, na Tijuca. De acordo com Carolina Vieira, coordenadora pedagógica do Abraço, todos os professores passam por um mês de capacitação antes de começar a lecionar. Além disso, há encontros mensais de três horas para reciclagem e esclarecimento de dúvidas, já que muitos dos educadores não exerciam essa função em seus países de origem. Sem patrocinadores, o curso se mantém apenas com o dinheiro das mensalidades dos alunos. No caso do intensivo de verão, os interessados pagaram 480 reais pelo pacote de aulas e o material a ser usado. Cada refugiado recebe 1000 reais por turma. “Nosso salário é acima da média do mercado”, afirma Carolina.

A oportunidade se mostrou uma chance de ouro para estrangeiros como Gustavo Martinez. Professor de inglês na Venezuela por quatro anos, ele decidiu deixar sua terra natal por questões políticas. Como se sabe, o país é governado por Nicolas Maduro, sucessor de Hugo Chávez (morto em 2013) na implantação de um regime de inspiração socialista com traços nacionalistas. De Caracas, Gustavo pediu a uma amiga no Panamá que lhe comprasse passagens para o Brasil. “Os bilhetes custaram 800 dólares. Se eu não comprasse ida e volta, o governo não me deixaria viajar”, lembra ele, que chegou no Rio em fevereiro de 2015. Depois de trabalhar por sete meses em uma rede de lanchonetes, o educador descobriu o Abraço Cultural no fim do ano retrasado. “Menti que estava doente no trabalho para poder participar da capacitação. Fiquei muito feliz quando fomos escolhidos para dar aula. Gosto muito da metodologia”, afirma Gustavo, que é professor do curso desde a primeira edição, realizada em março de 2016.

Quem é refugiado?

Qualquer cidadão que deixa seu país de origem em função de guerra ou perseguição é considerado refugiado pelas Nações Unidas. De acordo com a Cáritas, não há uma estimativa de quantos pessoas vivem hoje nessa situação na região metropolitana fluminense. Porém, a entidade afirma que há mais de 6.500 estrangeiros refugiados ou que solicitaram refúgio em todo o estado do Rio.

"É um desafio se enquadrar na sociedade brasileira"

A maior parte dos refugiados que vivem hoje no Rio e cidades próximas vêm de locais como Angola, Colômbia e República Democrática do Congo, segundo representantes da Cáritas. Os três países têm em comum um histórico político recente instável, com grupos armados atuando dentro de seus territórios (leia mais no mapa abaixo). "A maioria dos refugiados se estabelece nas regiões mais pobres, com maior concentração nas favelas, no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense e em São Gonçalo", afirma Aline Thuller, coordenadora do Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio da Cáritas RJ. De acordo com ela, a expectativa é que o número de pessoas nessa situação na região metropolitana cresça nos próximos anos, já que conflitos armados e crises humanitárias são cada vez mais frequentes e países desenvolvidos têm fechado suas fronteiras para a população refugiada.

Makela Mbila Salazar é um dos estrangeiros que escolheu o Brasil após sofrer perseguição política em sua terra natal. Formado em fisioterapia, ele atuava como comerciante em Kinshasa, na República Democrática do Congo até o começo do ano passado. Porém, em abril de 2016, Salazar foi preso por uma semana por apoiar Moïse Katumbi. Conhecido por ser dono do time de futebol Mazembe, o empresário é o principal opositor de Joseph Kabila, presidente do país desde 2001. Após ser liberado da prisão, Salazar e outras 15 pessoas partiram rumo à África do Sul em maio. De lá, ele e mais dois amigos vieram para o Brasil de barco. A viagem lhes custou 2 mil dólares. Depois da chegada em São Paulo, o congolês veio ao Rio em busca de conhecidos, onde terminou se estabelecendo. Morador de Duque de Caxias, ele trabalha como segurança de um supermercado no Engenho Novo e sofre com a desinformação dos brasileiros sobre seu país de origem. "Perguntam se lá tem leão, se vivíamos na mata”, conta. "É um desafio se enquadrar na sociedade brasileira", resume ele.

Próximos passos

Até o fim de janeiro, o Abraço Cultural deve abrir as inscrições para seu curso regular. As aulas começam em 6 de março e o programa completo pode durar até cinco anos, conforme o idioma. Para 2017, Carolina planeja contratar quatro novos professores e investir na consolidação da iniciativa de sucesso. Segundo ela, os alunos têm apresentado desempenhos muito similares aos verificados em outras instituições. “Nossa meta é nos firmarmos cada vez mais como um curso de idiomas e não só de refugiados”, revela. Entre os estrangeiros, o futuro ainda é incerto. Gustavo não sabe se vai ficar no Brasil, mas está satisfeito e pretende começar um blog sobre as mudanças em seu país desde 1999, quando Hugo Chávez assumiu o poder. Já Salazar sonha com o dia em que voltará para África. "Não há lugar melhor do que a nossa casa. Se as coisas melhorarem, penso em voltar. Tudo depende das mudanças políticas”, diz.

  • Compartilhe:

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre Trabalho

Osterio dedicado à história reúne especialistas no político e na família para discutir como suas histórias entrecruzam-se entre si e com a história da sociedade carioca.

Mais sobre Região Metropolitana

Batizado de Geovias Metropolitano, trabalho iniciado nesta sexta (16) será coordenado pela Câmara Metropolitana

Estudo aponta centralidades emergentes na região metropolitana do Rio

Campo Grande e Taquara foram áreas citadas em pesquisa, apresentada nesta terça (06) em evento no Centro do Rio

Um diagnóstico sobre a região metropolitana do Rio

Evento nesta segunda (24) marcou a divulgação dos resultados da primeira fase do plano metropolitano

Os últimos a serem os primeiros

Problemas em candidaturas atrasam resultado do 1º turno em Nova Iguaçu, Itaguaí e Rio Bonito

Mais sobre Rio de Janeiro

Livro reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio

Biblioteca Parque amanhece fechada no Centro

De acordo com Governo do Estado, fechamento é excepcional e prefeitura deve manter espaço aberto em 2017

De mulher para mulher: ocupação feminista no Rio

Rede Agora Juntas encerra neste sábado (17), na Glória, experiência que debateu direitos das mulheres

Alerj vota mudanças no Rioprevidência nesta semana

Medida faz parte do pacote proposto pelo Governo do Estado, que entra em fase final de votação
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino