10 Perguntas

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10 Perguntas 12 / 04 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

Repórter, profissão de risco

A segurança dos jornalistas que cobrem protestos na atual crise política e daqueles que vêm acompanhar a realização dos jogos olímpicos no Rio preocupa Emmanuel Colombié, representante da ONG Repórteres Sem Fronteiras. O jornalista acredita que a liberdade de imprensa é o fundamento de toda democracia. A organização internacional escolheu o Rio para abrigar um escritório que acompanha a situação dos profissionais que atuam na América Latina.

Foto: Máquinas colocados no chão por fotógrafos em protesto contra a morte do cinegrafista Santiago Andrade, em 2014 (Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Há histórias que são do interesse de todas as pessoas, pois afetam diretamente suas vidas. Para contá-las, foi criada a profissão de repórter. O problema é que, às vezes, os repórteres precisam contar histórias que mexem com os interesses de gente poderosa. E fazer isso sem correr riscos é um grande desafio.

A notícia boa é que, na maioria das vezes, conseguimos. A ruim é que, em algumas ocasiões, histórias importantes deixam de ser contadas. O caso do jornalista Tim Lopes é um exemplo. Em 2002, uma história sobre exploração sexual de adolescentes e venda de drogas na Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio, não pôde ser contada porque traficantes o mataram antes. Já o cinegrafista Santiago Andrade morreu atingido por um rojão quando filmava uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus em frente à Central do Brasil, em 2014.

Só no ano passado, 110 jornalistas foram mortos por motivos relacionados à profissão no mundo inteiro. O número é da ONG Repórteres Sem Fronteiras. Ela existe para que histórias que são do interesse de todas as pessoas não deixem de ser contadas. A organização abriu em setembro do ano passado no Rio seu primeiro escritório na América Latina. A ideia é acompanhar mais de perto a situação dos jornalistas na região.

O repórter francês Emmanuel Colombié é responsável pelo escritório e conversou com o Vozerio. A segurança dos jornalistas que cobrem as manifestações da atual crise política e daqueles que acompanharão a realização dos jogos olímpicos no Rio são algumas de suas principais preocupações. Leia abaixo os melhores momentos do bate-papo.

  1. Como funciona a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF)? Nossa missão é monitorar a liberdade de imprensa, o direito dos jornalistas de se expressarem. Afinal, os jornalistas são fundamentais para qualquer democracia. Para isso, atuamos de várias maneiras. Temos correspondentes em quase todos os países do mundo. Fazemos contatos com os governos para que leis e outros mecanismos de proteção sejam criados para a imprensa. E também pressionamos os ministérios da justiça pelo fim da impunidade em crimes envolvendo jornalistas. Temos um sistema de assistência para jornalistas em situação de risco. Oferecemos bolsas e outras formas de ajuda para que eles possam pedir asilo em outros lugares, caso seja necessário. Além disso, fornecemos material para quem faz jornalismo em zonas de conflito, como coletes à prova de balas.
  2. Por que o Rio foi escolhido para abrigar o escritório responsável pela América Latina? Nossa presença nos países de língua espanhola da região já era forte. Mas, no Brasil, nossa visibilidade era menor, tanto em relação aos jornalistas quanto a governo, ONGs e outros tipos de apoiadores. Por isso, escolhemos abrir o escritório regional aqui. Estávamos em dúvida se nos instalaríamos no Rio ou em São Paulo, que nos pareciam os melhores lugares em função da grande concentração de correspondentes internacionais. Terminamos optando pelo Rio. A ideia é aumentar a visibilidade da RSF por aqui. É uma missão de longo prazo, que visa um crescimento durável do escritório.
  3. Qual é o principal desafio da RSF aqui na América Latina? O maior problema na América Latina hoje é a corrupção. Ela está presente em quase todos os países e nas mais diversas formas. Nosso alvo prioritário em 2016 na região é o México e, especificamente, os jornalistas do estado de Veracruz. Lá, a Justiça não tem feito quase nada pelos repórteres que são mortos. Isso faz com que se crie um ciclo vicioso de impunidade. Nele, o assassinato é sucedido pela omissão da Justiça, uma mensagem negativa que termina gerando novos crimes. Percebo que há uma diferença entre o discurso e a realidade. Se um jornalista é morto no México, o presidente Peña Nieto condena a ação publicamente. Mas, como a Justiça não cumpre seu papel, a impunidade permanece. Isso acontece não só no México, mas no Brasil, na Colômbia, em Honduras, El Salvador e outros locais. E o funcionamento da Justiça é essencial para a valorização do trabalho jornalístico.

    O funcionamento da Justiça é essencial para a valorização do trabalho jornalístico

  4. Há outros problemas na região que mereçam destaque? A violência institucionalizada é outra questão séria aqui no continente. De acordo com o último levantamento anual da RSF, Cuba é o pior local para jornalistas na América Latina, por conta do regime totalitarista, em que o governo controla quase toda a informação que circula. Durante a visita do Obama, por exemplo, houve a prisão de blogueiros que tentavam cobrir o evento. É um governo que não quer imprensa livre, não quer liberdade de pensamento. Há outros locais problemáticos nesse sentido. Na Venezuela, houve falta de papel organizada pelo governo para a impressão de jornais em março. Isso representa uma técnica diferente de censura à imprensa por parte do governo, que controla a importação do produto. Estamos preocupados também com a Argentina, onde também há poucos veículos e o novo presidente está mudando a chamada Lei de Meios, que regula a distribuição de licenças. Esse é um problema que denunciamos frequentemente porque consideramos que a concentração dos meios impede a pluralidade da imprensa e o desenvolvimento da mídia independente. Entretanto, é importante destacar que também há bons exemplos de relação com a imprensa por aqui, como Chile, Costa Rica e Uruguai. Há um grande número de coisas acontecendo hoje no continente e, para mim, isso significa muito trabalho.
  5. E quais são os desafios aqui no Brasil? No Brasil, existe na mídia o chamado coronelismo, no qual políticos, empresários e chefes de igrejas são donos de veículos de comunicação. Seis ou sete famílias controlam 90% das empresas da área. A concentração de muito poder na mão de poucas pessoas influencia o tratamento que é dado à informação, tornando muito ruim a qualidade do produto final. Abordamos esse tema no relatório O País dos 30 Berlusconis, divulgado pela RSF em 2013. É um problema que existe em outros locais também, ainda que em menor proporção. Além disso, há leis malfeitas, como a das rádios comunitárias. Tudo isso facilita a existência da impunidade para quem age contra a imprensa e forma a base de um ciclo vicioso de desvalorização do trabalho jornalístico. Basicamente, o meu trabalho é pedir aos governos que façam seu trabalho, que conduzam investigações até o fim e punam os envolvidos em atos contra a liberdade de expressão.
  6. Que problemas os jornalistas brasileiros costumam enfrentar quando fazem reportagens? Antes de tudo, é preciso diferenciar a situação dos jornalistas de grandes veículos daquela vivida por blogueiros, radialistas e repórteres independentes que atuam no interior. Eles têm um cotidiano diferente, já que a maior parte das mortes de jornalistas diretamente relacionadas ao exercício da profissão acontece longe das grandes cidades. Tivemos o caso de um repórter decapitado há pouco tempo. Ele estava envolvido há meses com uma investigação sobre prostituição infantil. Sua cabeça foi encontrada dentro de uma caixa. É algo horrível, mas que pode acontecer num contexto em que os poderes locais são corruptos e relacionados ao crime organizado. Mas, para mim, o grande desafio para o jornalista hoje é ficar fora da rede de interesses que tenta perturbar a qualidade das informações. Tanto que há vários ex-jornalistas de grandes veículos que abrem portais próprios na internet. Eles funcionam como fonte de felicidade para pessoas que lutam por um bom jornalismo.
  7. Desde julho de 2009, o jornal Estado de São Paulo está proibido de publicar reportagens sobre uma investigação da PF que envolve a família do ex-presidente José Sarney. Como a RSF avalia essa situação e em que medida ela pode atuar para resolver o problema? Há outros casos parecidos? Esse é um problema que acontece em muitos países mundo afora. Na França, por exemplo, há donos de empresas que proíbem que determinados jornais falem de seus negócios. O resultado disso é uma autocensura por parte dos jornalistas, que terminam evitando o assunto. No mundo ideal, o trabalho jornalístico deveria ser totalmente livre. Mas, no meu entender, essa restrição judicial não é o maior do problemas do Brasil nessa área, e sim apenas mais um exemplo da mistura de interesses graves que existe no país. Eu não sei se é pior a falta de informação ou a informação influenciada. Como as duas existem por aqui, a capacitação dos leitores para compreender as fontes de informação tem de melhorar. Isso fica muito claro em momentos como a crise política atual, em que a análise dos fatos termina se tornando algo muito complicado.

    No mundo ideal, o trabalho jornalístico deveria ser totalmente livre

  8. Em que medida a violência no Rio interfere no trabalho desenvolvido por jornalistas? O Brasil é um país violento de maneira estrutural. A gente verifica isso na distância que existe entre ricos e pobres e em outros aspectos. Para mim, a violência contra jornalistas, no sentido em que você coloca, é apenas um reflexo disso. Tratar essa questão é uma responsabilidade do Estado. O repórter não poder entrar numa favela com segurança é um problema, mas um problema muito maior é a desigualdade social, que vitima tanto jornalistas quanto pessoas de todas as outras classes.
  9. Na sua opinião, o Rio está preparado para receber os jornalistas que irão cobrir a Rio 2016? Na verdade, estamos até mais preocupados com a atual crise política e a série de conflitos que ela tem gerado. Digo isso porque onde há protestos, há jornalistas. Mas também estamos preocupados em relação à segurança dos jornalistas que vão cobrir o evento. O temor maior é que haja violência direta contra repórteres durante a cobertura de manifestações. Vamos monitorar atentamente o tratamento dispensado à imprensa. Porém, acreditamos que os jogos devem acontecer com tranquilidade. Geralmente, as notícias de esporte não são alvo de censura. Nossa intenção de agora até o fim da Rio 2016 é acompanhar quem cobre os problemas da cidade que o prefeito não tem interesse de mostrar. Esperamos que quem quiser mostrar algo além de praias e caipirinha também possa trabalhar normalmente.
  10. Os casos de agressão contra jornalistas durante protestos também têm tido acompanhamento por parte da RSF? Temos registrado muitos casos de violência a jornalistas na cobertura de manifestações. As agressões partem tanto da PM quanto de manifestantes insatisfeitos com a abordagem feita por parte de grande grupos de comunicação, como a Rede Globo. Acreditamos que a liberdade de imprensa é o fundamento de toda a democracia. Ajudar o trabalho dos jornalistas é ajudar o sistema democrático a se desenvolver. O Brasil é um país em desenvolvimento, mas que ainda tem muitos problemas. Acho que ajudar a liberdade de expressão e de imprensa vai ajudar o país de maneira geral. Penso que essa relação entre democracia e liberdade de imprensa é tão óbvia que todo mundo deveria estar preocupado com essa questão.
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Convidado

Emmanuel Colombié

Jornalista responsável pelo escritório da ONG Repórteres Sem Fronteiras para a América Latina

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