10 Perguntas

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10 Perguntas 22 / 04 / 2015| Isabela Fraga

Retrato de um fotógrafo quando jovem

De cara, o nome chama atenção: "Ratão" Diniz, fotógrafo nascido e criado na Maré e com o coração já plantado no Nordeste — terra da mãe e do pai. Conhecido pelas imagens que captam a "alegria e o bom humor", nas palavras do mestre João Roberto Ripper, ele faz questão de dizer: o que faz não é arte contemporânea, é fotografia. Ratão se formou na primeira turma da Escola de Fotógrafos Populares do Observatório de Favelas e, desde então, tem sido cada vez mais reconhecido — pelo talento e pela postura de resistência. Tanto que lançou este ano o primeiro livro, Em Foto, pela editora Mórula. Ao final da entrevista, veja algumas imagens do fotógrafo.

  1. Por que "Ratão"?
    Eu digo que é a evolução da espécie: ratinho, camundongo e ratão. Brincadeira! Meu nome é Marcos. Quando fui assinar a primeira foto que publiquei no Jornal do Brasil, dez anos atrás, numa matéria sobre o Imagens do Povo, fui mostrar todo contente para os meus vizinhos. Então um deles perguntou "quem é Marcos Diniz?". Quando eu falei que era eu, ele disse: "mas o seu nome é Ratão Diniz!" Aí eu acabei assumindo ’Ratão’ como crédito. Um amigo antropólogo uma vez perguntou se o fato de eu usar esse nome compromete o meu trabalho. Mas acho que não. Ele quis dizer no sentido de um mercado formal. Eu nem tenho interesse nesse mercado formal. Não comecei a fotografar pensando em viver de fotografia. Eu pensei em fotografar para viver para a fotografia; viver dela tem sido consequência. Passo por alguns perrengues financeiros, mas ao mesmo tempo fotografo o que acredito e o que gosto. Antes de qualquer coisa, meus clientes são meus amigos, na verdade. São tipo financiadores dos meus projetos autorais e documentais.
  2. Mas agora você está começando a se inserir mais nesse mercado tradicional, a ser mais reconhecido, não?
    É, e às vezes eu recuo... Às vezes eu entro numa paranoia quando acho que o trabalho está saindo do que eu acredito, do que eu curto, e recuo. Fico isolado, vou ver meus arquivos, vou fotografar coisas ali perto de mim.
  3. E como você se sente quando é legitimado e reconhecido pelos meios de comunicação que às vezes estereotipam e criminalizam a Maré e outras favelas?
    Às vezes eu penso nisso. Acho que os espaços são nossos, a gente tem que se apropriar deles. Por exemplo, existe um certo conflito entre as diversas organizações aqui na Maré, e eu falo para todo mundo: quem se prejudica nesse conflito são os moradores, as pessoas que podiam ser beneficiadas. E isso também acaba reforçando uma imagem de conflito que existe dessas favelas. A gente sai perdendo. Então eu acho que a gente tem que se apropriar dos espaços, sim. Seja a Vila Olímpica, seja a Redes [da Maré], seja o Observatório de Favelas, seja o Ceasm [Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré], o Museu da Maré: é nosso. E estão pensando no morador quando inscrevem um projeto. Então, como morador, nós temos que nos apropriar deles. Eu tenho me apropriado muito dos espaços da Maré nesse sentido, que eu reconheço como nossos.
  4. No seu livro há uma série de fotos de ocupação militar de favelas. Como é essa experiência?
    Não gosto de fotografar com ocupação, me sinto intimidado. Fui revistado uma vez pela polícia. Foi num momento em que eu estava indo fotografar a remoção de uma comunidade na Maré. No começo foi de boa, viram o equipamento e não implicaram muito com isso. Só foi tenso quando o segundo militar chegou e falou para eu abrir a bolsa. Eu respondi: “Cara, não tem nada aqui, não.” Ele retrucou que “estava mandando”. Perguntei para ele se era essa a relação que ele queria construir com o morador. E aí começou uma discussão, até um ter que segurar o cara e minha companheira me segurar. As fotos de ocupação no livro são do Lins e do Caju, não deu tempo de colocar essas fotos da Maré.
  5. Você já contou que houve um momento na vida em que teve que escolher entre uma guitarra e uma câmera. Como foi essa escolha?
    Eu tinha uma banda e fazia um barulho. Já tinha uma guitarra e queria outra, embora nem tivesse uma caixa amplificada. Na adolescência, sempre fui envolvido com milhares de coisas — banda, escola, curso de pré-vestibular, estágio na Fundação Oswaldo Cruz, o núcleo de produção gráfica do Ceasm, era monitor de uma turma de informática. E tudo isso estava acabando, os projetos estavam terminando. Então fiquei pensando o que podia fazer para continuar circulando nos espaços como eu fazia. E a fotografia foi esse caminho. Vi trabalhos do [João Roberto] Ripper e do Sebastião Salgado nas aulas de pré-vestibular e pensei: “quero fazer o que esses caras fazem, estar nos lugares, contar histórias, encontrar pessoas. Entendi que a fotografia podia me dar essa mobilidade pelos espaços. Então comecei o curso básico no Senac com o dinheiro que eu ia usar para comprar a guitarra. Decidi que era aquilo que eu queria para mim e mergulhei fundo. Quando eu estava terminando esse curso, meu irmão, que trabalhava no Observatório de Favelas, me avisou que ia começar um curso de fotografia lá. Ele disse que o professor era ótimo, e vi que era o Ripper. As inscrições já tinham acabado, mas eu queria assistir como ouvinte mesmo. Para mim, diploma é um papel, não é uma prova que vai decidir se você é capaz de assumir um trabalho ou não.
  6. Hoje em dia você fotografa também outras partes do Brasil, como o Nordeste. Como é fotografar lugares tão distantes e diferentes e outros tão familiares, como a Maré?
    Fotografar a Maré é um processo difícil porque fotografar a própria casa é difícil, um desafio. Esse processo de desconstruir o olhar viciado, a comunidade, a comodidade de um olhar mais comum é o que a gente aprendeu com o Ripper. Aquela rua que é familiar para a gente, temos que começar a reparar na luz, qual horário tem uma luz bacana, que reflete um outro lugar; o horário que os vizinhos vão para a rua ou ficam conversando. E a fotografia permite essas aproximações. Então, fotografar a Maré é sem dúvida muito mais desafiadora para mim do que fotografar o Nordeste. O Nordeste, na real, é a historia dos meus pais, minha também. Minha mãe é do Rio Grande do Norte — uma cidade chamada Goianinha — e meu pai de Caiçara, na Paraíba. Eles se conheceram na Maré e eu sou o filho caçula desse casamento. Então fotografar o Nordeste é fotografar lembranças — não as minhas. Sempre fui muito apegado à minha mãe. E ela me contava muita coisa do Nordeste, da infância dela. Então o que eu busco hoje é justamente fotografar essas lembranças que ela narrou, que eu criei na minha imaginação, o que eu ouço na musica do Luiz Gonzaga. Por isso acho que fotografar o Nordeste foi bem mais fácil: porque é muito afetivo, tenho uma relação muito afetiva com o Nordeste. Tanto é que eu fui casar com uma paraibana! (risos).
  7. E fotografar no Rio, como é?
    O Rio de Janeiro hoje está impossível. Tenho dificuldade em fotografar o Rio, por mais incrível que pareça. Tenho feito pouquíssimos trabalhos na cidade, porque a rede que eu tenho trabalha muito mais para fora, em outros estados. Fotografei uma festival de musica barroca em Minas Gerais, um circuito de cinema pelo interior do Brasil. Então, de certa forma, eu não preciso estar perto do Rio, e sim de um aeroporto, de um lugar de onde eu possa me locomover com facilidade. Por isso, tenho um desejo grande de morar no Nordeste, mas não deixarei a casa da minha família no Rio, na Maré. É um espaço de minha história que jamais deixarei de negar, é um lugar de reflexão.
  8. Por ser da Maré, você se sente de alguma forma responsável quando fotografa a comunidade?
    A responsabilidade é grande, de fazer com que as pessoas se reconheçam nessas imagens. Há uma relação de confiança. E isso não é só com fotografados da Maré, é com tudo. Acho que quado os meus vizinhos, não só o pessoal da Maré, se reconhece nas fotos, é o maior pagamento. Eu sabia que não ia ganhar nada financeiramente com o livro, mas essa questão de as pessoas se reconhcerem ali é o que me faz ser fotografo, me faz fotografar.
  9. Então a sua relação é mais com as pessoas do que com o lugar que você fotografa?
    Total. O Ripper sempre falou para a gente sobre o respeito ao fotografado, e isso ficou muito comigo. E como ele é uma grande referência para mim, absorvi tudo o que ele podia ensinar: o respeito ao outro; a construção de um elo. Na verdade, essa busca do outro é uma busca por mim mesmo. Tudo o que eu fotografo tem uma conexão comigo.
  10. Você vê uma estética particular nas suas fotos? Como a definiria?
    As pessoas têm começado a me chamar para eventos de arte contemporânea, e eu tenho dito: o que eu faço é fotografia. Não sou eu quem devo julgar se é arte contemporânea ou não. Comparo muito a fotografia com o grafite. Acho que me identifico muito com o grafite, pois vejo muita coisa em comum com o meu trabalho. Por exemplo, o grafiteiro — assim como o pintor e outros artistas — vai criar sua própria linguagem, de maneira que você, passando na rua, pode identificar quem é só de bater o olho. Quando eu comecei a fotografar o movimento do grafite, em 2007, passei a andar na rua tentando identificar o trabalho de cada artista. Da mesma forma, existem pessoas que me falam: "Caraca, Ratão, vi uma foto e sabia que era sua." Eu fico feliz quando as pessoas identificam uma linguagem nas minhas fotos.

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Convidado

Ratão Diniz

Fotógrafo, é autor do livro Em foto

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