Pensatas & paixões

  • Compartilhe:
Pensatas 23 / 11 / 2015|

Rio de Janeiro, cidade metropolitana

O projeto de lei para criação da Agência Metropolitana encontra-se neste momento em debate na Assembleia Legislativa, e a elaboração do Plano Metropolitano teve início com a contratação de um consórcio de consultoria selecionado por meio de licitação internacional, em parceria com o Banco Mundial. O desafio maior agora é que ambos os processos se abram de forma franca à escuta e à contribuição das vozes diversas com potencial de fazê-lo: de atores da sociedade civil nos vários pontos da metrópole ao setor privado, de núcleos acadêmicos dedicados à formulação pública no Rio aos meios de comunicação.

(Foto: Paulo Rodrigues/Casa Fluminense)

E 2016 chegou. Agora que a Copa passou e as Olimpíadas estão aí, segue a tarefa de realizá-las com êxito, mas sobretudo a de ampliar no tempo e no espaço a agenda pública do Rio.

O balanço já em curso do ciclo dos grandes eventos revela com cada vez mais clareza o volume de desafios persistentes por enfrentar: em mobilidade urbana, segurança pública, saneamento, habitação, desenvolvimento econômico, meio ambiente, transparência governamental, garantia de direitos e tanto mais.

Independentemente da avaliação que se faça do percurso recente do Rio, parece ganhar clareza também a ideia de que somente um planejamento inclusivo e de longo prazo, indo bastante além do calendário dos Jogos, poderá levar-nos ao Rio mais justo, democrático e sustentável de que precisamos. Meritório ou não, qualquer esforço limitado a alguns anos, condicionado por eventos específicos, em pontos centrais da metrópole, será incompleto e de curta duração.

Dizer “metrópole” aqui não é casual: o Rio das pautas acima será de fato o Rio inteiro, ou não será. A cidade metropolitana comum de 12 milhões de habitantes, de quem sai diariamente de Seropédica, Queimados ou São Gonçalo para trabalhar no Centro da capital, de quem vive ao redor da Baía de Guanabara, desejando-a limpa e viva, de quem vivencia a maior e a menor taxas de pobreza do estado, nos contrastes entre Japeri e Niterói.

Um espaço urbano integrado, que extrapola vastamente as fronteiras que historicamente delimitaram seu imaginário e atenções públicas, que compartilha atividades econômicas, serviços públicos, redes de transporte, paisagens e recursos naturais, história, cultura e população, e que apenas compreendido nesta totalidade poderá superar seus desafios e realizar-se como a cidade contemporânea e vibrante que aspira a ser.

Não é pouco ambicioso afirmar essa visão, considerando a limitação histórica do que costuma vir à mente e a debate público quando se fala em “Rio”. Mas parece ser possível, no caminhar recente da cidade. É estimulante notar o conjunto crescente de vozes reconhecendo o imperativo de pensar-nos com esta universalidade, assim como o movimento em curso do Governo do Estado de criar uma Agência de Gestão e um Plano de Desenvolvimento Metropolitano para o Rio.

Após mais de duas décadas de ausência de qualquer ação similar no Rio, a iniciativa busca responder à determinação legal do Estatuto da Metrópole, em vigor desde 2013, mas também – assim acreditamos e desejamos – à afirmação gradual da importância desta agenda ampliada na abordagem sobre o Rio.

Será preciso construir alternativas para a geração de oportunidades econômicas descentralizadas na metrópole, conjugando-as com opções de moradia, serviços e lazer também distribuídas, esvaziando assim as pressões por deslocamentos crescentes que conduzem o Rio aos piores índices de mobilidade no país e minam a qualidade de vida de todos. Refazer prioridades de investimentos em transportes com políticas voltadas ao conjunto da metrópole e seus fluxos cotidianos, em lugar da limitação artificial às fronteiras municipais.

Traçar estratégias abrangentes em segurança pública, saúde e saneamento — áreas nas quais é impossível superar os desafios sem a articulação entre os diferentes níveis de governo e atenção ao todo da metrópole. Adequar investimentos sociais e a melhoria de serviços públicos para que respondam a desigualdades na metrópole por inteiro, promovendo justiça e condições de desenvolvimento sustentado para além de ciclos restritos em extensão e benefícios.

Em tudo isso, e talvez mais importante, será preciso contar com envolvimento e participação sociais capazes não apenas de conferir legitimidade a esta agenda, mas de afirmá-la como a demanda pública que precisa ser. O projeto de lei para criação da Agência Metropolitana encontra-se neste momento em debate na Assembleia Legislativa, e a elaboração do Plano Metropolitano teve início com a contratação de um consórcio de consultoria selecionado por meio de licitação internacional, em parceria com o Banco Mundial.

O desafio maior agora é que ambos os processos se abram de forma franca à escuta e à contribuição das vozes diversas com potencial de fazê-lo: de atores da sociedade civil nos vários pontos da metrópole ao setor privado, de núcleos acadêmicos dedicados à formulação pública no Rio aos meios de comunicação. Sem isso, não teremos apenas um processo manco, minado pelo centralismo e déficit de debate e transparência, como também um esforço exposto à condição de meramente técnico, sem o significado social e político que precisa ter para chegar à prática, como projeto coletivo de uma cidade que vislumbra seu futuro comum.

Pela Casa Fluminense, temos desde 2013 nos dedicado a impulsionar esta visão, buscando criar uma rede de ação no espaço pleno da metrópole e caminhar em conjunto na construção de respostas para os nossos desafios partilhados, com o horizonte proposto aqui. Segue agora a importância ampliada de avançar nesta direção, com a criação de uma política metropolitana efetiva e a afirmação de agenda integral que possa nos levar ao pós-Jogos olhando pra frente.

  • Compartilhe:

Convidado

José Marcelo Zacchi

Coordenador Geral da Casa Fluminense e apresentador do programa Navegador, da Globo News.

Mais Pensatas

Recado da Cidade de Deus

Pesquisador do CESeC relata a indignação de moradores da Cidade de Deus se reuniram em um protesto na quinta-feira (24/11) contra o uso de mandado de busca coletivo nas ações policiais

Novo endereço para criar e empreender

Espaço de ’coworking’ Gomeia surge como centro de articulação entre grupos atuantes em cultura na Baixada Fluminense

O Filósofo do Samba

Nascido há 100 anos, sambista Silas de Oliveira é autor de uma obra atemporal, que vem sendo resgatada por uma nova geração de músicos

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre política

Livro aborda transformações da Baixada Fluminense durante a ditadura

6 momentos do Rio em 2016

Testemunhas contam o que viram de um dos anos mais agitados dos últimos tempos

De mulher para mulher: ocupação feminista no Rio

Rede Agora Juntas encerra neste sábado (17), na Glória, experiência que debateu direitos das mulheres

Prefeito eleito de Caxias é condenado a 7 anos de prisão por crime ambiental

De acordo com STF, Washington Reis (PMDB) se envolveu na criação de um loteamento ilegal quando era prefeito da cidade

Mais sobre democracia

Estudantes na porta 163ª Zona Eleitoral do Rio, no Catete, dizem não ter a menor ideia em quem votar nas próximas eleições e que só tiram o título "por obrigação"

Curso gratuito vai destrinchar o enigmático mundo das políticas públicas no Rio

Organizado pela Casa Fluminense, ciclo de aulas vai de abril a julho, na Glória; inscrições on-line estão abertas até dia 24/3

Bruxas e bruxos da cidade

Quem são os revolucionários do contemporâneo? Para o geógrafo Jailson de Souza e Silva, fundador do Observatório de Favelas, desafiar a alienação de si é revolucionário

Feminismo sem meias palavras

Em palco ocupado por mulheres, evento debate a propagação de pautas feministas entre garotas cada vez mais jovens, o feminismo na periferia e a história do movimento

Mais sobre mobilidade

Nova lei divulgada nesta segunda (28) quase vetou operação do aplicativo no Rio

Os reis do Uber

Motoristas veteranos no aplicativo investem em frotas para alugar aos que não têm condições de comprar seu próprio carro

Cinco desafios para o próximo prefeito do Rio

Especialistas em saúde, educação, mobilidade, segurança e economia apontam os principais problemas que o novo gestor da cidade vai precisar resolver

Lugar de bike é na rua

No Méier, com os ativistas do Bike Anjo, repórter do Vozerio testa como é pedalar em ruas sem ciclovia. Bairro tem debate hoje sobre o tema

Mais sobre saneamento

Grupo Executivo de Gestão Metropolitana divulga em junho proposta unificada de saneamento básico para 21 municípios

Em São Gonçalo, estrada divide Petrobras e prefeitura

Via construída pela empresa é acusada de agravar o problema dos alagamentos no Jardim Catarina

PPPs em saneamento básico: uma luz no fim do túnel?

Alternativa é vista como uma solução possível para o problema crônico da Região Metropolitana do Rio, mas ainda não é unanimidade

"A atual estratégia de combate ao mosquito vetor da zika é falha e equivocada"

Para o coordenador do Grupo de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o foco deveria ser o saneamento básico

Mais sobre meio ambiente

Livro reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio

Soluções para as cidades no século 21

Fazendas urbanas e reformas planejadas para favelas são algumas iniciativas que pretendem tornar mais equilibrado o crescimento das metrópoles brasileiras

Investidores já podem comprar ações do futuro

Títulos de impacto social oferecem mecanismos de financiamento para projetos de saúde, redução do desemprego e reincidência de presos

Caminhos do mar

Grupo no Facebook promove ciência cidadã sobre fauna marinha no Rio

Mais sobre desenvolvimento social

Painel formado por centenas de azulejos pintados por crianças da Maré será inaugurado na casa de moradora neste sábado (30/4); projeto pretende colorir ruas do bairro

"Precisamos mudar o CEP do emprego"

Como diminuir as desigualdades gritantes na Região Metropolitana do Rio? No OsteRio desta terça-feira (29/3), um caminho ficou claro: mais centros e oportunidades, menos distâncias e deslocamentos

Saudosas malocas

Urbanista Raquel Rolnik discute transformação da habitação, de política social em ativo financeiro, em novo livro lançado no Rio

Acessibilidade é desafio para idosos que vivem em favelas

Escadas, calçadas defeituosas e dificuldades de transporte são obstáculos para que moradores tenham acesso a lazer, saúde e serviços
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino