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Série A 1 / 02 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

Na segunda divisão da Sapucaí, os desfiles estão de primeira

Com repasse de verbas reajustado pela prefeitura e interesse crescente do público, desfile das escolas de samba da Série A conta com grandes nomes e se aproxima da elite do carnaval

(Foto: Tata Barreto/ Riotur)

Portela, Mangueira e outras escolas de samba da elite do carnaval carioca formam o Grupo Especial do Rio de Janeiro. Porém, nos últimos anos, o crescimento de uma espécie de segunda divisão da Sapucaí é que tem chamado a atenção dos amantes da folia. Conhecida no passado como Grupo de Acesso, a atual Série A vem passando por um bom momento que se reflete em números.

Neste ano, as 14 escolas da Série A desfilam na Sapucaí na sexta (5/2) e no sábado (6/2). Cada uma delas recebeu para fazer o carnaval aproximadamente 1 milhão de reais, o dobro do ano passado, graças a um reajuste no repasse da prefeitura. Em 2015, o CD com os sambas da Série A bateu a marca de 40 mil cópias vendidas. É um marco digno de artistas como Ivete Sangalo e Seu Jorge, de acordo com números da Associação Brasileira dos Produtores de Disco.

Em 2013, mais de 40% dos ingressos para o desfile do grupo foram vendidos em apenas um dia. No mesmo ano, a Globo passou a transmitir o evento no Rio. Outro sinal do sucesso da Série A é a presença de grandes nomes, como o carnavalesco Max Lopes. Tricampeão no Grupo Especial, Max assina o enredo da Viradouro em 2016. E ele não é o único. Tetracampeão pela Beija-Flor, Cid Carvalho é responsável pelo desfile da Cubango. "São carnavalescos de elite", resume Aydano André Motta, jornalista especializado em carnaval.

De primeira

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Claudia Mota em ensaio técnico com os integrantes da comissão de frente do Império Serrano (Foto: Claudia Mota)

Claudia Mota é primeira bailarina do Theatro Municipal. Nos espetáculos da companhia de dança da instituição, cabem a ela os papéis de destaque. Nascida em Ramos, criada em Olaria e apaixonada por carnaval, Claudia vai comandar em 2016 a comissão de frente do Império Serrano. Nove vezes campeão do Grupo Especial, o Império está na Série A desde 2010.

"Para mim, é a mesma emoção de estar em cena"
(Claudia Mota sobre seu trabalho como coreógrafa da comissão de frente do Império)

O nível acirrado da competição exige que os preparativos comecem cedo. No caso de Claudia, as primeiras conversas sobre o desfile aconteceram em abril. Isso permitiu que o conceito da comissão estivesse fechado em agosto e os ensaios começassem em outubro, duas vezes por semana. Os encontros passaram a acontecer quatro vezes por semana em dezembro e, no último mês, se tornaram diários. "Seja na Série A ou no Especial, a dedicação é a mesma", garante ela.

Ter uma das principais bailarinas do Theatro Municipal entre as suas estrelas não é o único atrativo da série A. Para Felipe Ferreira, coordenador do Centro de Referência do Carnaval, o nível de experimentação no grupo é muito maior do que o do Especial. O maior exemplo disso são as comissões de frente que, ao contrário do que acontece no primeiro time, não podem contar com tripés ou outros elementos alegóricos.

De acordo com o professor do Instituto de Artes da Uerj, isso estimula a criatividade dos coreógrafos. "A ligação com o Especial tem que existir, mas a experimentação é importante. A Série A é um espaço de transição dos grupos menores para a elite", afirma ele.

Segundo Felipe, o crescimento da Série A e de outras divisões inferiores reflete o fenômeno de descentralização por que passa a folia carioca, ao lado da explosão de blocos de rua nos últimos anos. "Trata-se de um carnaval mais lúdico, animado e descompromissado do que o do Grupo Especial", ele explica.

Outra semelhança entre Série A e Especial nos últimos anos são os bons sambas, que têm se repetido. Para muitos, a Série A até leva vantagem neste quesito. Um dos defensores deste ponto de vista, Aydano considera o hino da Viradouro o melhor de 2016.

Autor do livro Samba de enredo: história e arte juntamente com o historiador Luiz Antonio Simas, o escritor Alberto Mussa incluiu quatro sambas da segunda divisão na sua lista dos seis melhores do ano. Tirando os hinos do Salgueiro e da Vila, todos os outros da relação são de escolas do antigo Grupo de Acesso.

Amigas, camaradas, recebi muitas mensagens de gente indignada porque, dos 26 sambas dos grupos especial e de acesso A,...

Desafios

Claudia está ansiosa. Afinal, quase um ano de trabalho terá de ser apresentado em apenas 55 minutos. Esse é o tempo máximo dos desfiles na Série A. "A competição é muito acirrada e o nível só aumenta a cada ano", diz. Mas a bailarina está longe de perder a confiança. "Esse ano, vai ser difícil tirar o carnaval da gente", garante. O resultado estará na mão de 36 jurados, distribuídos por nove quesitos.

Para Ferreira, esta avaliação é o grande problema dos desfiles atuais de todos os grupos, incluindo a Série A. Segundo ele, o julgamento parece que parou na década de 1980. O professor defende uma reformulação do sistema, que permita que os jurados sejam mais ouvidos. Isso evitaria problemas como os registrados em 2015, quando a Unidos de Padre Miguel era a maior favorita para o título e a Estácio terminou campeã, conforme conta Aydano. "Falta transparência no julgamento da Série A", resume ele.

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Bateria da Estácio de Sá desfila em 2015. Escola foi campeã da Série A no ano passado (Foto: Raphael David/ RioTur)

Outro problema do grupo é o grande número de escolas, que faz com que as mais tradicionais se apresentem melhor do que as agremiações menores. Aydano lembra que, em 2014, escolas como a Em Cima da Hora e a Tradição desfilaram com carros feios e integrantes sem fantasias. Ele acredita que isso lesa o direito do espectador, que também é um consumidor.

"Quem compra o ingresso tem direito de ver um bom espetáculo".
(Aydano André Motta, jornalista)

As escolas da Série A sonham com a Cidade do Samba 2 para abrigar seus barracões. Mas o espaço ainda não tem data para ficar pronto, de acordo com o prefeito Eduardo Paes. Apesar de todas as dificuldades, os especialistas acreditam que o antigo Grupo de Acesso deve continuar evoluindo nos próximos anos.

De acordo com Aydano, a Série A só precisa "crescer do jeito certo", investindo mais na vibração e na música e evitando a "espetacularização" que tomou conta do Especial nos últimos anos. Felipe concorda e espera que o grupo siga um caminho diferente. "Ela pode criar uma identidade própria e se tornar tão ou mais interessante que o Especial", afirma.

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