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Sertão Carioca 29 / 07 / 2015|

O sertão é dentro da gente

"No anno dois mil, quando os nossos melhores romances já não tiverem mais leitores, alguns estudiosos subirão as escadas das bibliothecas para folhear ’O SERTÃO CARIOCA’. É o destino das cousas que nascem para durar sempre. É a sorte dos bons documentos." Edgard Roquette Pinto, no prefácio de O Sertão Carioca.

Rio de Janeiro, 1930. Capital do Brasil. Getúlio Vargas, recém-chegado ao poder após o golpe, reflete e alimenta o espírito nacionalista que domina o país. Enquanto a capital efervesce com transformações políticas, estruturais e sociais, não muito distante dali a vida é pacata, circunscrita a poucos habitantes que convivem com fauna e flora exuberantes. É o Sertão Carioca, nas palavras do ilustrador e naturalista autodidata Armando Magalhães Corrêa, conservador do Museu Nacional.

Em perambulações por esse sertão — onde, depois de inúmeros passeios, comprou um pequeno sítio —, Magalhães Corrêa escreveu crônicas e compôs belas ilustrações em bico de pena. Estas foram publicadas entre 1932 e 1933 no jornal Correio da Manhã. Em 1936, após incentivos do editor do jornal, Ricardo Palma, e do intelectual Roquette Pinto, a Imprensa Nacional reuniu todo o material em um livro intitulado O Sertão Carioca. Embora aclamado à época, Magalhães Corrêa não chegou a ser considerado um autor importante, mas desde os anos 1990 começou a ser objeto de artigos acadêmicos. Ainda assim, o livro é mais valorizado pela minúcia do que pelo estilo. Em um dos prefácios, o próprio Roquette Pinto afirma: "O pittoresco com que o artista soube descrever os differentes e individualizados typos profissionaes do Sertão Carioca, faz perdoar o desleixo do estylo."

Hoje, quase oitenta anos depois, a Biblioteca Nacional trabalha na reedição da obra como parte da homenagem aos 450 anos do Rio. No momento, está à espera do financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj). Caso seja publicada, a obra certamente será vendida a preços menores do que os praticados pelos sebos na Estante Virtual, que cobram entre R$ 150 e R$ 300 por um exemplar.

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A capa do Sertão Carioca, ilustrada por Magalhães Corrêa: natureza exuberante e isolamento abrigavam sertanejos mansos e "autênticos" (reprodução)

Com descrições de personagens, lugares e ofícios que foram apagados de Jacarepaguá, Barra e Recreio, o "Sertão Carioca" dos anos 1930 hoje parece incongruente em meio aos canteiros de obras e condomínios de prédios que ocupam a região. Afinal, foi o próprio caráter isolado da Zona Oeste que atraiu seus primeiros moradores e empreendimentos. Estes culminam agora no boom imobiliário e da construção civil impulsionado, entre outros fatores, pelas Olimpíadas de 2016.

O que ainda é subúrbio para parte da elite da cidade — ainda a mesma de 1936 — tornou-se centro: o Parque Olímpico, quando finalizado, ficará no núcleo do Sertão Carioca. Ainda que, de certa forma, valham as palavras de Ricardo Palma, editor do Diário Carioca, no prefácio do livro:

Sim, embora o carioca da Avenida, do posto 4, dos chás e cinemas chics fique espantado, existe, nesta sua maravilhosa terra um "sertão", como na Amazônia, em Matto Grosso, em Goyaz, em Minas, na Bahia. Embora menos bravio...

É esse (ex-)sertão "amansado" — nas palavras da antropóloga Candice Vidal, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais — que vamos percorrer neste passeio pelo Rio antigo. Visitaremos alguns locais mencionados por Magalhães Corrêa em busca de vestígios dos sertanejos que ali viviam e dos nomes que hoje ressoam como lugares perdidos — restinga de Itapeba, ilha do Marinho, represa dos Ciganos —; ofícios suplantados pelo ’progresso’ — tamanqueiros, esteireiras, machadeiros, cabeiros, oleiros, estrumeiros — ; e artefatos agora obsoletos — tipiti, biquilha, leira, alforge, bitola. Se a nós soam quase estrangeiras, essas palavras também não eram muito conhecidas pelos leitores dos anos 1930: não à toa, Magalhães Corrêa inseriu um "Vocabulário empregado e falado no sertão carioca" ao final do livro, que contém cerca de quinhentos termos.

1. O aqueduto do Pau da Fome

Nossa primeira parada é o aqueduto da Figueira e da Padaria, localizado hoje dentro do Parque Estadual da Pedra Branca, perto da antiga estrada do Pau da Fome. O aqueduto é apresentado no primeiro capítulo do Sertão:

O aqueducto, de cimento, tijolo e pedra, tem o seguinte traçado: mantém a canaleta das aguas sobre pilares com base em fôrma de dado, ligados entre si, na parte superior, por arcos de berço, de uma elegancia severa. A canaleta, pilares e arcos emmoldurados, por frisos de dez centímetros de largura, dão um balanço agradavel a esse aqueducto, pela projecção da luz e sombra que desenha em seu conjunto, indo terminar na Caixa d’água, em meio de um bem tratado jardim.
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Aqueduto da Figueira e da Padaria, que na década de 1930 transportava água de abastecimento da represa do Pau da Fome (ilustração: Magalhães Corrêa, reprodução)

A "elegância severa" e o "balanço agradável" proporcionado pelos pilares e arcos permanecem; parte do aqueduto, contudo, não transporta mais água. Sua função é ser ruína. Faz parte da trilha Circuito das Águas do Parque Estadual da Pedra Branca, criado em 1974 pelo governo do estado. As canaletas estão cobertas de musgos, cheias de folhas mortas. Seguimos a trilha do aqueduto e vimos que ele chega a lugar nenhum.

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O aqueduto da Figueira e da Padaria hoje: sobrepujado pela mata do Parque Estadual da Pedra Branca, o que sobrou foram apenas ruínas (foto: Mauro Pimentel)

Em sua origem, o aqueduto transportava águas da represa do Pau da Fome — que, curiosamente, continua ativa. Como o técnico que era, Magalhães Corrêa faz uma descrição minuciosa da represa, construída em 1908 e hoje tombada pelo Inepac: "barragem feita de pedra e cimento, cujo volume d’água de abastecimento da caixa é de 8.610.000 metros cúbicos, por vinte e quatro horas."

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A represa Pau da Fome, construída em 1908: ainda em funcionamento, embora reduzido (foto: Mauro Pimentel/Vozerio)

Em nossa visita, vemos que o reservatório está baixo: a água bate na metade da parede de cimento. Ainda assim, o último relatório sobre qualidade da água da Cedae — que gerencia a represa — informa que o sistema "Rio Grande" abastece 674 habitantes.

O fato de o aqueduto e a represa do Pau da Fome estarem hoje sob proteção estadual parecem uma resposta ao anseio do autor de O Sertão Carioca, manifestado inúmeras vezes ao longo do livro. Como conta o sociólogo José Augusto Drummond, o projeto de Magalhães Corrêa envolvia a proteção da natureza em uma perspectiva nacional — visão compartilhada por outros intelectuais da época, cujo nacionalismo se exacerbava. Sintetizando suas aflições frente à destruição das matas que o autor presenciava, ele clama:

Assim, senhores do poder, criai as nossas reservas ou parques nacionais, aproveitai as matas dos nossos mananciais, transformais a lagoa de Marapendi em reserva biológica da nossa fauna lacustre, como um viveiro permanente para a conservação das espécies, e assim teremos começado a verdadeira defesa da natureza.

Embora o Parque Estadual da Pedra Branca seja uma resposta a esse pedido, ele protege apenas uma parte do então Sertão Carioca. Ao sul do parque, por exemplo, uma comunidade quase rural disputa terras e importância simbólica com os empreendimentos olímpicos. É nosso próximo destino.

2. Igreja de São Gonçalo do Amarante

Dentro do Parque Estadual da Pedra Branca fica também o enorme açude do Camorim, considerado por Magalhães Corrêa "a mais bella reprêsa da terra carioca". De lá, conta ele, sai uma estrada até a Fazenda Camorim, de onde se ouvem "os sons de sinos a repicar alegremente". É a igreja de São Gonçalo do Amarante, na região do Alto Camorim.

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A Igreja de São Gonçalo do Amarante, no Camorim, desenhada por Magalhães Corrêa: construída em 1625 pelo dono da sesmaria de Jacarepaguá, Gonçalo Corrêa de Sá (imagem: reprodução)

Ao chegarmos lá, não ouvimos sinos nem festa. A igreja estava fechada, mas inteira: construída em 1625, a capela já passou por pelo menos duas restaurações: uma na década de 1980, realizada pelos próprios moradores; outra — oficial — nos anos 2000. "A igreja toda branquinha, com faixas azues, coberta de telha do canal, lembrava os tempos coloniaes", descreve Magalhães Corrêa no Sertão. Em 2015, a construção está exatamente assim.

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A igreja em 2015, após reformas no início dos anos 2000: azul e branquinha (foto: Mauro Pimentel)

Ao entrarmos no Alto Camorim, aliás, sentimos que voltamos no tempo: com poucos carros, muitas pessoas a pé e ruas de paralelepípedo, o bairro nem parece vizinho à estrada dos Bandeirantes, uma das mais movimentadas da Zona Oeste. Por isso, não surpreende saber que Camorim passa por um momento de resgate cultural e histórico, que gira em torno dos descendentes de escravos da Fazenda Camorim, de Gonçalo Corrêa de Sá — e, é claro, da igreja de São Gonçalo.

A figura de referência para esse resgate é Adilson Almeida, presidente da Associação Cultural do Camorim (Acuca). Encontramos Adilson em frente à igrejinha. Ele diz que é descendente de escravos e conta que os fugidos se reuniam nas grutas perto do antigo engenho do Camorim — há várias delas. Por isso, reivindica o reconhecimento da região como território remanescente de quilombo. "Em agosto de 2014, conseguimos a certificação do Quilombo do Camorim", conta Adilson. "Agora só falta o INCRA dar as terras."

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As obras do condomínio Grand Club Verdant, previstas para terminar em março de 201: disputa com os moradores do Alto Camorim (foto: Mauro Pimentel/Vozerio)

As "terras" que o INCRA deve doar para o quilombo são aquelas no entorno das grutas e onde ficam os vestígios do engenho da antiga fazenda. Não podemos ir até lá, pois a área é murada e dominada por mato. Mas Adilson nos conta que ali é o pivô da disputa entre a comunidade do Camorim e a construtora RJZ Cyrela. No início de 2014, a construtora desmatou parte da área para a construção de um condomínio — o Grand Club Verdant. "Ninguém de lá entrou em contato com a comunidade", conta Adilson. Após denúncias de moradores para o Ministério Público, a construtora informou que tinha as autorizações necessárias e que não havia ruínas no território.

No site da Cyrela, a empresa informa que o Grand Club Verdant ocupará um terreno de 238.477m² que abrigará 426 pequenas unidades. Os investimentos para as Olimpíadas parecem explicar a extrema valorização do bairro entre 2008 e 2014: 223,7%, segundo um artigo do livro Brasil: os impactos da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016. Em nossa visita ao Alto Camorim, vemos que a construção dos prédios altos do condomínio destoará bastante do restante do bairro, ocupado por casas e prédios baixos.

Uma parte das terras à esquerda da igreja, contudo, ainda pertence à prefeitura. São essas que Adilson espera receber do Incra para a construção da sede do Centro de Desenvolvimento Cultural Quilombola do Camorim. Segundo ele, apenas 100 famílias aderiram à Acuca e à disputa pelo reconhecimento quilombola. "O resto virou evangélico, sabe como é...", explicou Adilson, dando de ombros, quando perguntamos o motivo da adesão tão baixa.

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Adilson Almeida (à esquerda) e Renan dos Santos, pupilo na capoeira e na vida (foto: Mauro Pimentel/Vozerio)

Bisneto de capitão do mato
Mas a relação de Adilson e do Alto Camorim com o Sertão Carioca parece ir muito mais longe: "Sou bisneto do capitão do mato mencionado pelo Magalhães Corrêa, que era filho de escravos", conta ele. O "capitão do mato" é Caetano do Camorim, descrito por Magalhães Corrêa com tintas não muito elogiosas: "um verdadeiro capitão do matto, que, com a cumplicidade de um soldado do posto de Vargem Pequena, chamado Severino Marques da Silva, vulgo ’Quatro olhos’, pratica as maiores barbaridades."

Caetano era, segundo o autor do Sertão Carioca, um vigia do Banco de Crédito Móvel — instituição que se tornou dona de boa parte das terras da região no começo do século XX. Magalhães conta que a herdeira de Gonçalo Corrêa do Sá, D. Victoria do Sá, deixou em testamento as terras para o Convento de N. S. do Monteserrate, conhecido hoje como o Mosteiro de São Bento, no Centro do Rio. Os beneditinos, por sua vez, hipotecaram as terras ao Banco de Crédito Móvel — e acabaram por perdê-las.

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A família de seu Sebastião dos Santos (acima, à esq.): descendentes de Caetano do Camorim, personagem de O Sertão Carioca (foto: Mauro Pimentel/Vozerio)

Caetano, bisavô de Adilson, era uma espécie de zelador das terras do Banco. Magalhães Corrêa conta um episódio brutal perpetrado por ele: quando um arrendatário das terras endividado quebra a perna e é levado ao hospital, Caetano e Severino despejam sua esposa, Ernestina, de maneira bárbara: jogam seus pertences debaixo de uma soqueira de bambu, onde a pobre fica por dias. "Outras vezes, queimam as casas para os moradores saírem de seus lares e sítios", descreve ainda Magalhães Corrêa.

Brutal? Sim, mas não é essa a memória de Caetano preservada por seus descendentes. O pai de Adilson, Sebastião dos Santos, 67 anos — neto de Caetano, portanto — , nos conta lembrar bem de seu avô: "Ele era escuro, da minha altura, forte, muito conhecido no bairro. Trabalhava no Banco", conta seu Sebastião, antes de a memória falhar.

Assista a Adilson Almeida contar sobre o resgate da memória do Alto Camorim e falar sobre o avô, Caetano do Camorim, que Magalhães Corrêa conheceu em suas andanças pelo Sertão Carioca:

Do Alto Camorim, seguimos pela estrada dos Bandeirantes até a lagoa de Marapendi, que divide a "restinga de Itapeba" da restinga de Jacarepaguá, nos "Campos da Sernambetyba".

3. Lagoa de Marapendi: de "águas límpidas" a mar de esgoto

Essa extraordinaria lagôa, de agua dôce completamente límpida, revolta-se como o mar pelo capricho dos ventos.

O cenário idílico descrito por Magalhães Costa retrata essa parte do Sertão Carioca como uma selva exuberante repleta de animais e plantas exóticas. O passeio de barco por ali, conta ele, é "a maior emoção que se pode imaginar".

As páginas dedicadas às descrições das espécies de plantas e bichos marcam o tom do Sertão Carioca e de seu autor ultradetalhista. Macacos bugios, jaguatiricas, bichos-preguiça, tamanduás-bandeira e uma miríade de pássaros, na narrativa de Magalhães Corrêa, precisam sobreviver aos caçadores e machadeiros que desmatam as florestas. "Nas minhas excursões ao sertão carioca", conta o autor, "foi o que pude annotar de sua fauna, já um tanto sacrificada, por falta de leis em vigor que protejam e regulamentem a caça e a pesca."

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"Essa extraordinaria lagôa, de agua dôce completamente límpida, revolta-se como o mar pelo capricho dos ventos; seu fundo é arenoso, naturalmente assente sobre rocha." Magalhães Corrêa, 1936 (reprodução)

Se os caçadores eram os vilões em 1930, em 2015 eles já não se fazem tão presentes. Condomínios residenciais de prédios e casas, que despejam esgoto in natura na lagoa e nos canais que a alimentam, cumprem o papel de poluidores. Segundo a Cedae, 10% dos condomínios da Barra não estão conectados a redes de esgoto — isso seria resolvido até o fim deste ano, como afirma uma reportagem do jornal O Globo.

Ao nos aproximarmos da lagoa pelo Parque Natural de Marapendi, no Recreio dos Bandeirantes, o cheiro de esgoto evidencia a situação. Diferente do retratado por Magalhães Corrêa, quase não há barcos circulando por ali, e muito menos pessoas nadando. Alguns condomínios contratam serviços como o da EcoBalsas para o transporte até a praia e para passeios nos finais de semana.

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A lagoa de Marapendi vista do Parque Natural Municipal de Marapendi, no Recreio: águas longe de límpidas (foto: Mauro Pimentel/Vozerio)

Jacarés e mais jacarés
Apesar da situação degradante alertada inúmeras vezes por ONGs e ambientalistas, exemplares da fauna de 1930 sobrevivem hoje — alguns em grande número. É fácil avistar garças, galinhas d’água, gambás, micos (espécie invasora) e outros pássaros, mas um dos animais mais avistados é, curiosamente, o jacaré-verde. Ele vive sobretudo em canais como o canal das Taxas, perto do parque de Marapendi.

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Jacaré por Magalhães Corrêa (reprodução)
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Jacaré no canal das Taxas (Mauro Pimentel/Vozerio)

Mesmo em 1936, "o jacaré tinga ou jacaré verde (c. latirostris) é o habitante predilecto da lagôa", conta Magalhães Corrêa. No canal das Taxas, ele ainda o é. Caminhando ao longo do canal, vemos pequenos aglomerados de pessoas — visitantes ou moradores das redondezas — que param para observar os animais. Estes, letárgicos, tomam sol nas margens sem se importar com os olhares. Conta-se por ali que, volta e meia, algum cachorro vai parar na boca dos simpáticos répteis.

Para evitar um contato indesejado entre jacarés e humanos (e seus animais de estimação), a Prefeitura implantou a partir de 2011 um "corredor verde" ao longo do canal. Além de placas de aviso e perigo, agora há cercas e grades para impedir tanto pessoas de chegarem perto quanto os animais de saírem de seus hábitats confinados.

De que se alimentam? Capivaras, galinhas d’água e outros pequenos animais também são bastante vistos pela região. Dependendo do ângulo, até, podemos vislumbrar uma cena que poderia ter sido ilustrada por Magalhães Corrêa quase noventa anos atrás.

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4. Ofícios e vazios perdidos

Dos 22 capítulos do Sertão Carioca, 12 são dedicados a praticantes de ofícios que, em grande parte, desapareceram da Zona Oeste do Rio. Claro, ainda há pescadores e vendedores ambulantes, mas onde estarão os tamanqueiros, cabeiros, esteireiras, machadeiros, carvoeiros, cesteiros e pombeiros?

Em nossa visita ao Parque Estadual da Pedra Branca, um dos vigias contou que há alguns "bananeiros" que vendem cachos da fruta em cavalos pelas ruas, mas não encontramos nenhum. Sobre esses sobreviventes do sertão, Magalhães Corrêa demonstra empatia e pena: empatia porque são brasileiros autênticos; pena porque sofrem o descaso do governo:

Abandonados completamente pelos poderes públicos, sem codigo rural, sem assistência medica efficiente, sem instrucção adequada, vivem esquecidos nessa vasta região do Districto Federal, como se não fossem brasileiros.
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As esteireiras no traço de Magalhães Corrêa (reprodução)
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Homem rachando a tora de tabebuia para fabricar tamancos (reprodução)
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"Pombeiros de aves", os ambulantes de galinhas, perus, patos e ovos (reprodução)

Hoje, vimos em nosso trajeto que esses "sertanejos" de certa forma ainda existem, em Camorim e na Vila Autódromo; mas convivem com os grandes condomínios de prédios e com a expansão imobiliária impulsionadas pelos grandes eventos — do Pan-Americano de 2007 até as Olimpíadas de 2016. Os sertanejos, como os pescadores remanescentes da Vila Autódromo, que agora passam por um sofrido processo de remoção; como Adilson Almeida e seu pai, Sebastião dos Santos.

O sertão de Magalhães Corrêa é delimitado por rios — 37 deles —, por formações rochosas e outros corpos d’água: é um sertão político e geográfico. E foi justamente por ser "sertão" que essa expansão imobiliária em velocidade estelar foi possível. Como afirma a antropóloga Mariana Cavalcanti, do IESP, que tem estudado a formação da "Barra Olímpica" em Curicica, a remotidão da Zona Oeste possibilitou a "urbanização bizarra" que se constata, por exemplo, em Camorim — onde uma igreja de 1926 e ruas de paralelepípedo têm visto ascender um imenso condomínio residencial. "Não houve passagem da zona rural para a urbanização. A cidade brotou do nada", avalia Mariana.

A relativa distância em relação ao centro urbano e os amplos espaços vazios teriam motivado o uso desse sertão por empresas de grandes eventos e espetáculos: Riocentro, Rock in Rio, Projac, estúdio da Record, Autódromo, Pan-Americano e agora as Olimpíadas — sem falar nas dezenas de casas de show e grandes shoppings espalhados por ali.

"Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar." A definição de Riobaldo sobre o sertão — uma das muitas no Grande Sertão: Veredas cabe bem no Sertão Carioca de Magalhães Corrêa: o lugar mudou; o distanciamento, nem tanto.

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O Sertão Carioca de Magalhães Corrêa: hoje, a região compõe os bairros de Jacarepaguá, Guaratiba, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes (reprodução)

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