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Nuvens de crise sobre o Rio 6 / 03 / 2015| Rosa Lima (especial para VozeRio)

Setor petroleiro ainda é motor da economia carioca

Apostar nas cadeias produtivas de maior potencial no estado do Rio também é a estratégia proposta por especialistas como Mauro Osorio e Claudio Porto. Em entrevista ao Vozerio, os dois economistas ainda identificam o setor petroleiro como o vetor do desenvolvimento, mas destacam a importância de valorizar outras cadeias produtivas.

Professor da UFRJ e uma das maiores autoridades em economia fluminense, Mauro Osório diz que a primeira dessas cadeias é, obviamente, a de óleo e gás. Dados do setor petrolífero apontam que a produção do estado aumentou de 57 milhões de metros cúbicos de petróleo, em 2000, para 96 milhões de metros cúbicos em 2009, um crescimento de 69%. Este avanço consolidou a posição do Rio de Janeiro como o maior produtor do país, cuja participação em 2009 foi de 85% na produção nacional.
Mesmo com as dificuldades e restrições da conjuntura atual, Mauro Osório considera que a indústria do petróleo é e continuará sendo um dos principais motores do desenvolvimento do Rio de Janeiro. “A crise da Petrobras é uma questão conjuntural, financeira, política, que vai ser superada; não diz respeito a capacidade técnica nem aos recursos de que a empresa dispõe”, afirma. “Também não acredito que o petróleo deixe de ser nossa principal fonte de energia num prazo curto; neste momento, ele ainda representa uma janela de oportunidade importante para o estado do Rio.”

“A crise da Petrobras é uma questão conjuntural, financeira e política, que vai ser superada." Mauro Osorio, economista da UFRJ

Outra cadeia produtiva apontada por Mauro Osório como extremamente promissora para o estado é a do complexo da saúde. “O Rio de Janeiro tem 12% da farmacêutica nacional, tem uma pesquisa em saúde forte nas universidades, tem a Fiocruz, que é uma âncora importante na atração de empresas, tem uma população que está envelhecendo e que demanda cada vez mais serviços de saúde, tem uma cirurgia plástica que é referência até no exterior, tudo isso representa uma grande oportunidade econômica para o estado.”

Turismo, entretenimento, cultura, esporte e mídia são os setores que compõem a terceira cadeia produtiva com grande potencial de dinamismo no Rio, segundo Osório. "Temos tudo para sermos a capital do Brasil nessas áreas, que ainda são muito subaproveitadas."

O adensamento dessas cadeias produtivas, no entanto, esbarra em sérios gargalos de infraestrutura — problemas de água, esgoto, energia, telecomunicações, mobilidade, segurança e baixos níveis educacionais, que impõem ao estado uma extensa agenda de desafios. “De fato, tivemos melhorias significativas nos últimos anos: aumentamos a renda da população e conseguimos atrair grandes investimentos. Temos um dinamismo potencial, mas que ainda precisa ser disseminado a partir dessas cadeias produtivas. Para isso, ainda temos uma agenda aberta com muitos desafios. Temos um passivo enorme a ser endereçado por conta de uma máquina pública que ficou anos abandonada e que ainda carece de quadros de qualidade. Também é preciso ampliar a reflexão sobre a questão regional, para que a gente não fique a reboque de lobbies ou de achismos”, disse por fim Mauro Osório.

Visão comum de longo prazo
Diretor presidente da Macroplan, especializada em estratégia e gestão, Claudio Porto avalia que o momento é de muitas oportunidades e desafios para o Rio. “No curto prazo, o cenário é de perda de dinamismo econômico, tendo em vista a importância da indústria extrativa mineral para a economia fluminense e a conjuntura macroeconômica. No médio e longo prazo, a retomada do dinamismo econômico depende das incertezas associadas ao setor de petróleo e da solução de gargalos ao desenvolvimento econômico do Estado”, afirma o consultor.

Na sua visão, os principais riscos deste momento de dificuldades no quadro econômico são recessão e volatilidade econômica devido à elevada dependência do petróleo e estagnação da queda da desigualdade de renda. “O Rio de Janeiro apresenta o maior índice de Gini (0,531) do Sudeste, ou seja, é o mais desigual. Na região, fomos o estado que menos reduziu a desigualdade entre 2004 e 2013”.


Assim como Osorio, Claudio Porto também vê na baixa qualidade da gestão pública um gargalo para o desenvolvimento estadual. “O problema é particularmente grave nas prefeituras municipais. Em um estudo que realizamos em 2013, sobre a gestão pública nos 100 maiores municípios do Brasil, apenas Niterói está no grupo das 25 com melhor desempenho – é justamente a 25ª. O Rio ocupa a 33ª posição. Duque de Caxias é a 78ª, seguida de São Gonçalo (79ª); São João do Meriti está em 83º lugar; Belfort Roxo é a 94ª e Nova Iguaçu a 97ª”, revela Claudio.

Além disso, disponibilidade limitada de recursos hídricos, crescentes problemas de mobilidade urbana (em todo o país, é na Região Metropolitana do Rio que se gasta mais tempo no deslocamento casa-trabalho – média de 51 minutos, enquanto são 48 minutos em São Paulo), déficit de empreendedorismo, fragilidade do ambiente de negócios e mão de obra com baixa qualificação profissional são outras fragilidades que ameaçam o pleno desenvolvimento fluminense, segundo a Macroplan.

A retomada do dinamismo econômico depende das incertezas associadas ao setor de petróleo.” Claudio Porto, diretor da Macroplan

Claudio Porto destaca a importância de que o estado compartilhe um projeto de desenvolvimento de longo prazo, que mobilize e comprometa as principais forças políticas, econômicas e sociais do estado em torno de uma visão compartilhada de futuro.

“O fundamental é termos uma visão comum de longo prazo e trabalhar em parceria em prol de uma agenda robusta de desenvolvimento econômico, alinhada aos novos desafios da economia e capaz de mobilizar e articular todo o Estado, em especial, a região metropolitana”, finaliza Claudio Porto.

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