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Doenças sexualmente transmissíveis 7 / 11 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

Sífilis congênita assusta na Baixada Fluminense

O Ministério da Saúde anunciou no último dia 20 uma ação nacional de combate à sífilis. A alta taxa de incidência da versão congênita da doença preocupa na Baixada Fluminense. A região apresenta cerca de 15 casos a cada mil nascimentos. De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde, o recomendável é que o índice não ultrapasse 0,5 infectado a cada mil partos.

Foto: Hospital da Mãe, em Mesquita (Bruno Itan/Governo do Estado)

Uma questão ainda sem solução. Assim pode ser definida a presença da sífilis congênita na Baixada Fluminense. Nas cinco maiores cidades da região, a taxa de incidência da doença foi maior que o dobro da média brasileira em 2015. No último dia 20, o Ministério da Saúde anunciou uma ação nacional de combate à sífilis e trouxe à tona novamente a situação, que vem sendo acompanhada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio (Cremerj).

"Hoje, a ocorrência de sífilis congênita na Baixada Fluminense é de cerca de 15 casos a cada mil bebês nascidos vivos", afirma Gil Simões, médico e coordenador da Comissão de Fiscalização do Cremerj. A taxa é superior à verificada no Rio, estado com maior incidência da doença no país, com 13,6 infectados a cada mil partos em 2015 - segundo o último informe epidemiológico. Dados do Ministério da Saúde mostram que a média nacional no ano passado foi de 6,5 recém-nascidos com a patologia a cada mil nascimentos, índice 13 vezes maior do que o recomendado pela Organização Pan-americana de Saúde.

A distância entre os números mostra a gravidade do quadro existente em Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João do Meriti e Magé. “A infecção da sífilis na Baixada Fluminense está fora do controle", resumiu Nelson Nahon, vice-presidente do Cremerj, em encontro sobre o tema no último dia 2 de agosto. (veja mais no quadro abaixo).

Os especialistas apontam diversos fatores para a grande incidência de sífilis congênita na região metropolitana do Rio. Para Gil, a precariedade na saúde básica é um deles. Já a médica da família Julia Moreli, que atende casos da doença na capital, enxerga outra causa. "As pessoas perderam o medo das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e estão usando camisinha com menos frequência", diz ela.Coordenadora do programa de controle de DST/Aids de Nova Iguaçu, a doutora Paula Guidone afirma que a alta no número de registros também tem, entre suas causas, uma mudança positiva. "Esse crescimento reflete um aumento na quantidade de exames para detecção da doença feitos nos últimos anos", explica a médica.

O que é?

A sífilis é uma doença causada pela bactéria Treponema pallidum. Sua transmissão se dá por relação sexual ou durante a gravidez, quando a mãe passa a patologia para o filho. A segunda forma de contágio origina a chamada sífilis congênita e pode ser facilmente evitada com acompanhamento pré-natal. Porém, esses cuidados ainda não estão ao alcance de muitas mulheres da Baixada. Lá, o índice de gestantes que realizaram sete ou mais consultas antes do parto em 2013 foi de 51,9% - abaixo da média nacional, de 61,8%. Os dados são da Firjan.

A campanha anunciada pelo Ministério da Saúde no último dia 20 tem vários pontos em comum com o Plano de Enfrentamento da Sífilis Congênita (PESC), publicado pelo Governo do Estado em setembro do ano passado. Entre eles, estão a previsão de ampliar o diagnóstico, a oferta de tratamento da doença e de atendimento pré-natal para grávidas. Após a divulgação do PESC, várias prefeituras começaram a agir. Seis ações de conscientização e mais de 250 testes rápidos foram realizados neste ano em Caxias, cidade com maior população da Baixada. Já em Nova Iguaçu, aconteceu em janeiro uma semana de mobilização contra a sífilis, durante a qual quase 650 mil camisinhas foram distribuídas. De 1º de janeiro a 5 de outubro, a prefeitura da cidade realizou 11.276 testes para diagnosticar a doença e obteve 1096 resultados positivos. "Nossa meta para os próximos anos é diminuir esse índice", afirma Paula.

“A infecção da sífilis na Baixada Fluminense está fora do controle"

Mulheres jovens em gestação formam a maior parte dos pacientes identificados com sífilis. "O exame é obrigatório no pré-natal", explica Paula. Mas o grupo não é o único com doentes. Julia conta que já atendeu homens idosos e donas de casa com o problema. "Em geral, os pacientes não se assustam nem se surpreendem quando recebem o resultado positivo", conta ela. Paula diz que o mesmo comportamento é verificado na Baixada. "No caso da sífilis, a aceitação do diagnóstico e a busca pelo tratamento são mais comuns do que na Aids, o que é uma vantagem", pontua. De acordo com Julia, no caso da sífilis congênita, o grande desafio é tratar a doença no pré-natal para evitar que o bebê nasça contaminado.

Segundo os médicos, o uso de preservativos é a principal forma de prevenir a sífilis. Entretanto, ele ainda é um tabu para alguns grupos, o que influencia na disseminação da doença. "Há pessoas que não usam por conta da religião ou por acreditarem que se relacionam com poucos parceiros", explica Paula.

Diagnóstico e tratamento

O teste para diagnóstico da sífilis é rápido. Basta uma gota de sangue e 15 minutos para que saia o resultado e o tratamento pode começar no mesmo dia. Ele dura três semanas e consiste em 6 injeções de penicilina benzatina, mais conhecida como bezetacil. De acordo com o Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), esse procedimento previne a transmissão da doença da mãe para o filho em 98% dos casos. Entretanto, uma falta de matéria-prima para fabricação do remédio em 2014 afeta ainda hoje sua distribuição no Brasil, conforme informa o Ministério da Saúde. Segundo o órgão, a regularização da situação "ainda segue um cronograma lento". A ausência de medicamento é um dos obstáculos enfrentados pelas prefeituras para a resolução do problema.

"Pacientes não se assustam nem se surpreendem com resultado positivo"

A resistência à camisinha combinada com os problemas no abastecimento de bezetacil têm gerado os piores resultados possíveis. De acordo com o CDC, bebês com sífilis congênita podem apresentar convulsões e dificuldades de desenvolvimento, além de correrem risco de morte. A taxa de óbitos provocados pela doença no estado do Rio foi três vezes maior do que a média nacional em 2013, segundo o último levantamento do Governo Federal. E nada indica que o cenário seja melhor na Baixada Fluminense.

Entre os médicos, diversas medidas são apontadas como possíveis soluções para a situação. Para Gil, é necessária a contratação de novos profissionais e um maior investimento no combate à doença. Já Julia acredita que o aumento da conscientização pode ser decisivo na superação do problema. Para Paula, o estímulo ao uso de preservativos e o avanço no diagnóstico e tratamento de pacientes são importantes. "Nossa preocupação é que as pessoas saibam que têm a doença e se tratem", diz ela.

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