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Subúrbio 8 / 10 / 2015| Daniel Gullino

Subúrbio: investigações de um território

Pesquisa mostra que cariocas divergem sobre os limites da região e definem o subúrbio pela afetividade e pelo uso dos espaços públicos

Região esquecida por muitos, mas exaltada por tantos outros, o subúrbio carioca é difícil de definir. Na ausência de uma descrição oficial, para alguns, o subúrbio é composto pelos bairros alinhados ao longo dos trilhos dos trens da Supervia. Para outros, a marca é a distância em relação ao Centro. Um terceiro grupo utiliza o poder aquisitivo dos moradores como definição. E ainda há os que detectam um estado de espírito suburbano.

Tentando decifrar esse mosaico, o urbanista Rodrigo Bertamé realizou, recentemente, uma pesquisa online que perguntava, entre outras questões, se o participante se considerava suburbano. O levantamento é parte do mestrado de Bertamé, ainda em curso, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), intitulado provisoriamente "Rizoma suburbano". O urbanista, carioca de Irajá, elegeu como tema a "ressignificaçao do conceito de subúrbio no Rio de Janeiro". O questionário ficou disponível por três meses, e recebeu cerca de 400 respostas, de moradores de 132 localidades diferentes.

Ainda não estão disponíveis os percentuais, mas o mapa mostra que, na Tijuca e no Grajaú, poucos dizem ser suburbanos, ao contrário do que acontece no Méier, em Parada de Lucas, Vila da Penha e Brás de Pina. Mas há vozes dissonantes: em cada um desses bairros, alguns moradores têm visão oposta à da maioria.

Um aspecto que chamou a atenção do pesquisador foi que mesmo moradores de municípios da Região Metropolitana — como Duque de Caxias, Belford Roxo e São João de Meriti — se identificaram como suburbanos. Por outro lado, ele considera áreas como Jacarepaguá, na Zona Oeste, como "em disputa".

Veja o mapeamento feito por Bertamé na imagem abaixo (clique no quadrado à esquerda para ver as categorias)


Outra pergunta questionava a definição que os participantes atribuíam ao subúrbio. “A maioria entende como os bairros que não têm tanto dinheiro”, afirma Bertamé. Alguns, no entanto, exaltaram um estilo suburbano típico. “Morar no subúrbio é ser periférico, é ser marginal. É lugar de gente que dá duro no trampo, mas no domingo cumpre a lei do churrasquinho com breja na lage. Suburbano é sinônimo de trabalhador, quando não é de malandro. É no subúrbio que se faz a roda de samba, de ciranda, de conversa na calçada, onde crianças aprendem na rua e no grito”, pontuou um morador de Irajá.

Já um participante, da Barra da Tijuca, admitiu a dificuldade em encontrar uma definição. "Sua pesquisa me deixou com sérias dúvidas, não consigo dizer porque considero um bairro subúrbio ou não", confessou.

E a visão do próprio Bertamé junta trechos do samba-enredo "Kizomba, Festa da Raça", da Vila Isabel. "Subúrbio é gente de todas as raças, todas as culturas, com jogo de cintura e a sede de que o apartheid se destrua", afirma.

Mudança histórica

O conceito de subúrbio, no entanto, nem sempre foi ligado ao de classe social. O pesquisador cita o trabalho do geógrafo Nélson da Nóbrega Fernandes, que foi professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), como uma referência na análise da transformação semântica do termo. No livro “O rapto ideológico da categoria subúrbio: Rio de Janeiro, 1858-1945”, Fernandes mostra que a definição incluía, inicialmente, qualquer bairro no entorno do Centro. Era o caso, por exemplo, de Botafogo, Ipanema ou Copacabana, bairros na época ocupados por casas dos mais ricos, que muitas vezes funcionavam como um local de descanso. Esse modelo existe até hoje em cidades da Europa e dos Estados Unidos.

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O transporte público é apontado como uma das principais deficiências do subúrbio (Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil)

A reforma urbanística realizada pelo prefeito Pereira Passos no início do século XX, contudo, retirou os pobres da região central. Eles foram obrigados a procurar locais afastados para morar. Foi a partir desse momento que a percepção sobre o subúrbio passou a ser ligada principalmente a classe social, ganhando inclusive um caráter pejorativo. Construiu-se também a ideia de que essas regiões recebem menos investimentos do poder público.

“O conceito carioca de subúrbio expressa, anuncia e reafirma, literalmente, apenas aquela intenção de utilizar tal espaço para retirar da cena urbana as classes populares da cidade, a intenção de lhes negar até mesmo a possibilidade de estar, no nível da representação, dentro da cidade”, escreveu Fernandes em um artigo publicado em 2009 na “Revista da FAU UFRJ”, publicação do curso de Arquitetura e Urbanismo da universidade.

Mesmo percebendo que as áreas consideradas suburbanas recebem menos recursos, Bertamé percebe mudanças nos últimos tempos. “O conceito de subúrbio está se ressignificando. Não está mais fechado como antigamente”, destaca. Como exemplo, ele cita o “1° Fórum Suburbano de Políticas Públicas”. O evento, realizado em 2012, foi umas das motivações de sua pesquisa.

A rua como um ponto de encontro

Repensar o subúrbio é um dos motes do livro "Meu Lugar”, que será lançado em outubro pela Mórula Editorial. Os organizadores — o historiador Luiz Antonio Simas e o escritor Marcelo Moutinho — convidaram 34 cronistas para escrever sobre um bairro da cidade com o qual tivessem ligação especial. “Todos os autores olharam a cidade a partir da pequeneza, do que aparentemente é insignificante, mas que apresenta a cidade de forma potente”, diz Simas.

O historiador acredita que uma das principais marcas do subúrbio é a sua relação com o território, entendida apenas na vivência cotidiana. A rua, por exemplo, é um ponto de encontro, e não apenas de passagem. Inclui-se nesta ambiência diferente também o comércio de rua, que foge da “impessoalidade do shopping”, e o relacionamento próximo com os vizinhos.

Responsável pela edição de um livro e por um documentário sobre Honório Gurgel, a jornalista Ana Claudia Souza também reconhece um certo “estilo suburbano”. “Há uma apropriação do espaço diferente”, relata. Para comprovar a tese, cita dois exemplos. Em Honório, ela viu, recentemente, uma festa de casamento realizada no meio da rua, que chegou a bloquear uma esquina, mas não incomodou os vizinhos. Já em Laranjeiras, onde mora atualmente, um churrasco na rua irritou um morador, que reclamou: “É a suburbanização da Zona Sul”.

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Mutirão de Plantadores, realizado pelo Honório Gurgel Coletivo no Jardim da Amizade

Essa cultura, contudo, estaria sendo ameaçada. “Essas características são solapadas por uma visão de cidade empresarial. Temo que estejam se perdendo. Você pensa a cidade como um ponto de circulação de mercadorias, não como de encontro”, lamenta Simas. Em uma cidade que se reinventa desde 1960, quando deixou de ser a capital federal, o processo ganha nova força estimulado pelos megaeventos, como a Copa do Mundo e a Olimpíada de 2016.

O historiador alerta também para a valorização excessiva de alguns locais, como Madureira, que teria se tornado a “estrela” do subúrbio. “É quase como se o subúrbio fosse Madureira. Essa visibilidade tem como contrapartida a invisibilidade de outras áreas”, ressalta.

Vergonha suburbana

Não são poucos os problemas dos bairros ditos do subúrbio. Em Honório Gurgel, por exemplo, Ana Claudia diz que os Correios e algumas lojas não entregam encomendas. A circulação de ônibus à noite é interrompida. Localidades como Costa Barros tornaram-se cenário de tiroteios e conflitos. "São tantas características negativas que muitas vezes é complexo se assumir suburbano”, afirma a jornalista. A situação lembra a música "Menina do Subúrbio", de Fernando Mendes. “Sempre tem gente que vai ter vergonha”, reforça Simas.

As dificuldades, especialmente de mobilidade, fizeram com que a assistente editorial Rachel Rimas deixasse Ramos. Cansada de levar 2h30 até o trabalho, na Gávea, ela optou pela Tijuca. Ex-moradora também de Brás de Pina e da Penha, Rachel acredita que o poder aquisitivo dos moradores é determinante na definição dos cariocas sobre o que é subúrbio. “Tudo que não é Zona Sul e Barra se transforma em subúrbio”, relata. Ela reconhece, no entanto, que a Tijuca é considerada uma exceção porque tem uma infraestrutura melhor.

Mudanças em curso

É por essas e outras que pessoas como Ana Claudia Souza vem buscando nas favelas inspiração para produzir mudança. “Os movimentos de favelas foram muito mais inteligentes e articulados. Os moradores do subúrbio se encolheram mais. Cabe uma organização maior do subúrbio em busca de si mesmo”, avalia.

Pequenas iniciativas comunitárias, que vão desde a restauração de calçadas até a organização de partidas de futebol, tentam mudar o panorama de desalento. Uma delas é o Honório Gurgel Coletivo, iniciativa que organiza eventos de revitalização de áreas públicas e debates. “Esses micromovimentos são importantes para esse caminho de valorização”, comemora a jornalista, que costuma sair da Zona Sul para frequentar as atividades do grupo.

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Panfletos do Sarau do Escritório, que começou na Lapa e já teve edições em outros bairros da cidade, como Santa Cruz (Foto: Victor Coutinho)

Outro exemplo é o projeto Ágoras Cariocas, iniciativa do coletivo Norte Comum. O grupo realiza encontros em áreas públicas para discutir a história dos subúrbios, em debates liderados por Simas. Um exemplo de projeto pensado para encontrar novo encanto nestes bairros.

Essa revitalização é reforçada por Luiz Fernando Pinto, que trabalha na Mufa Produções, coletivo responsável pelo Sarau do Escritório, evento que começou na Lapa e já passou por diversos bairros. “O subúrbio, hoje, virou centro. Temos muitos movimentos acontecendo nesses territórios, as pessoas estão tendo uma visão mais ampla da cidade. O movimento independente está muito grande”, garante.

Ele conta que em Senador Camará, onde nasceu e ainda vive, a produção cultural sempre foi forte. Mas era raro que atraíssem pessoas de fora do bairro. Agora, garante, existiria um intercâmbio maior, em todo o Rio. “Você vai em um sarau em Sepetiba e vai ver gente de tudo quanto é lugar”, conta.

Luiz relata que essas ações culturais misturam diversas linguagens, como cineclubes, rodas de rima, saraus, teatro e apresentações de passinho. “Tem um hibridismo muito grande. É tudo junto e misturado”, destaca.

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