Reportagens

  • Compartilhe:
Sustentabilidade 22 / 10 / 2015| Daniel Gullino

Comunidades livram-se do lixo

Semana Lixo Zero, aberta nesta quarta-feira (21/10) na Alerj, chama atenção para projetos de reciclagem e limpeza de vias que mobilizam moradores de favelas. No morro dos Prazeres, ReciclAção já recolheu mais de dez toneladas este ano.

“Não é questão de consciência, é necessidade. As mudanças vão vir de quem precisa”. Egeu Laus, coordenador do movimento Comunidades Lixo Zero, define assim o crescimento de soluções apresentadas por moradores de favelas que se reúnem para enfrentar um problema recorrente: o acúmulo de lixo. Esses movimentos estão em destaque na Semana Lixo Zero, período de mobilizações que acontece simultaneamente em diversos pontos do país e que chega pela primeira vez ao Rio de Janeiro. A abertura foi realizada ontem (dia 21), na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Até o encerramento, dia 29, estão previstos encontros em cerca de 50 comunidades e seis municípios fluminenses além da capital. Parte da programação está disponível aqui. Mas Egeu explica que qualquer um pode participar da semana, que pretende refletir sobre as responsabilidades do consumo e pensar alternativas para a gestão de resíduos. “Um bate-papo em seu prédio já faz parte”, garante. O designer, que se define como um "agitador cultural", acredita que os três maiores incentivos para quem quer se engajar são a melhora da saúde, o retorno financeiro e possibilidade de fazer arte com os materiais.

Na Zona Oeste, reciclagem ainda é sonho

Um exemplo de iniciativa é a Patrulhinha da Limpeza, criada em 2011, em Rio das Pedras. Incomodada com a fama da favela, que diziam ser a mais suja do Rio, Cleusa da Cruz Florenço reuniu crianças e adolescentes, de 10 a 15 anos, para percorrer a comunidade com apitos na mão, denunciando quem joga lixo na rua.

JPEG - 38.1 kb
Cleusa da Cruz Florenço criou o Patrulhinha da Limpeza em Rios das Pedras: crianças denunciam, com apito, quem joga lixo na rua (Foto: Carolina Lessa/Alerj)

O grupo começou com 100 jovens, mas por falta de recursos hoje só reúne 30. Cleusa reconhece que muitos moradores não aceitaram bem as críticas no início, mas acredita que hoje há uma melhora significativa. “As pessoas colocavam lixo em tudo que é beco. Hoje, não temos mais essa situação”, comemora.

Para a Semana Lixo Zero, o grupo vai promover um campeonato de futebol, shows, uma oficina de reaproveitamento de alimentos e até um desfile de moda. O próximo passo é o reaproveitamento: já existem iniciativas isoladas de reciclagem, mas Cleusa sonha com um projeto que englobe toda a comunidade. “Vai ter! Tenho certeza que vai ter. Não vou parar. Preciso do Rio das Pedras sem lixo”, promete.

Também na Zona Oeste, em Gardênia Azul, outro projeto dá os primeiros passos: o Grupo de Ação Ambiental Gardênia Azul (GAAGA), criado há quatro meses. A gestora do projeto, Izabel Maia, já trabalhava com questões ambientais, e sentiu falta de ações desse tipo no local. “Percebemos que muita coisa acontecia nas comunidades vizinhas, e nada na Gardênia”, lamenta.

O grupo já fez campanhas para o reaproveitamento de óleo em escolas, e planeja outras iniciativas, como o replantio nas margens de um canal que costuma transbordar. Sonhando com um projeto de reciclagem no bairro, Izabel chama a atenção para a perspectiva de retorno financeiro. “O seu lixo reciclado hoje será o pão de alguém amanhã”, aponta.

Amanhã, o GAAGA promove uma Feira de Cultura Ambiental, evento que vai incentivar o consumo consciente, a reciclagem e o descarte correto do lixo. Uma das atividades será a Troca Solidária: quem entregar seu lixo receberá recompensas, como livros ou plantas.

ReciclAção: a escuta como prática

No Morro dos Prazeres, foi uma tragédia que causou a mudança: um desmoronamento, causado por um temporal, deixou 34 mortos e 7 mil desabrigados, em abril de 2010.

Para impedir outros acidentes, um grupo se mobilizou e realizou um mapeamento das áreas com mais acúmulo de lixo. Depois, resolveram organizar uma coleta seletiva na comunidade. Em 2012, surgiu o ReciclAção, fruto de parceria de diversas organizações, como o Centro de Promoção da Saúde (Cedaps) e o Grupo PROA, e com patrocínio da BRF.

JPEG - 44.4 kb
Cris é uma das coordenadoras do ReciclAção, projeto de reciclagem no Morro dos Prazeres (Foto: Carolina Lessa/Alerj)

O funcionamento é simples: foram distribuídas 44 sacolas (ou eco bags) pela comunidade. Lá, os moradores colocam os materiais que podem ser reciclados: papel, garrafas plásticas, caixas de leite, alumínio e óleo de cozinha.

Três operadores recolhem o lixo e o separam. Os resíduos, então, são levados por organizações que têm parceria com o projeto, para serem reciclados. Os recursos recebidos serão investidos posteriormente na comunidade. O resto do lixo, que não pode ser reciclado, continua sendo recolhido pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb).

“As pessoas achavam que nós estávamos delirando”, lembra Zoraide Gomes, mais conhecida como Cris dos Prazeres, coordenadora do projeto. Para ela, a chave do sucesso foi conhecer o território, o que só foi possível escutando os moradores. Eles ajudaram a definir os locais de coleta dos materiais. “Fiquei horas ouvindo. Fui na Igreja Católica, na Igreja Batista, fiquei na porta da birosca”, relata.

Ela afirma também que o importante não é determinar para as pessoas o que é certo e o que é errado, e sim proporcionar a reflexão. “Ele quer o lixo dentro de casa? Por que então permite o lixo a dois metros de casa?”, questiona.

Na fase inicial do ReciclAção, que durou 14 meses (de novembro de 2012 até dezembro de 2013), foram coletadas quatro toneladas. No ano seguinte, o número saltou para 10 toneladas. Em 2015, essa marca foi superada em junho.

Expansão planejada

JPEG - 191.5 kb
Roberto e Orlando são os responsáveis por recolher os materiais que serão reciclados das sacolas, no Morro dos Prazeres

O aumento no volume modificou o esquema de retirada, que era mensal e passou a ser de 15 em 15 dias. E, mesmo assim, às vezes o caminhão responsável não consegue levar todo o material. “Significa que aquela ideia inicial fez sentido para a comunidade”, comemora Luis Arcoverde, assessor técnico do Cedaps.

Luis acredita que um ponto positivo é que o foco não foi o retorno financeiro. “As pessoas aderiram porque compreenderam que essa iniciativa melhorava a qualidade de vida delas”, aponta. Em novembro, o grupo vai realizar um seminário com organizações de outras comunidades, com o objetivo de expandir o projeto.

Um dos responsáveis pela coleta dos sacos, Orlando Dato conta que no inícios muitos não sabiam o que poderia ser reciclado. “No começo até coliforme fecal vinha”, conta. Campanhas educativas ajudaram a evitar o problema. Orlando afirma que quase não há mais lixo nas ruas.

Mais limpo hoje, o Prazeres vive entanto um retrocesso do ponto de vista da segurança. Conflitos armados voltaram a ocorrer na UPP, criada em 2011. Orlando afirma que os tiroteios não afetam seu trabalho. “A violência não me assusta. Conheço todo mundo”. Ele acredita, contudo, que faltou ao projeto das UPPs um atenção maior para o lado social. “A pacificação é incompleta”, reclama.

  • Compartilhe:

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre favela

Documentário conta cinco histórias de jovens migrantes que residem nas favelas do Rio

UPPs: 8 anos depois

Moradores de favelas ocupadas revelam impressões, opiniões e expectativas em relação ao projeto

Daqui do morro, eu não saio não

Até o fim do mês, moradores e historiadores relembram relação entre favela e ditadura em curso sobre o tema

Cidade de Deus vira capital da literatura

Até domingo (13), Festa Literária das Periferias (Flupp) agita favela da zona oeste carioca

Mais sobre meio ambiente

Livro reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio

Soluções para as cidades no século 21

Fazendas urbanas e reformas planejadas para favelas são algumas iniciativas que pretendem tornar mais equilibrado o crescimento das metrópoles brasileiras

Investidores já podem comprar ações do futuro

Títulos de impacto social oferecem mecanismos de financiamento para projetos de saúde, redução do desemprego e reincidência de presos

Caminhos do mar

Grupo no Facebook promove ciência cidadã sobre fauna marinha no Rio

Mais sobre lixo

Aquífero Piranema, um dos mais importantes da região, pode ser atingido; vazamento foi contido no domingo (21/2) e empresa tem até amanhã para se pronunciar

Natal em Jardim Gramacho

O lixão de Duque de Caxias foi fechado, mas o lixo está por toda parte, integrando-se ao cotidiano das crianças

Mais sobre reciclagem

Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino