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Teste de mobilidade 23 / 10 / 2016| Bibiana Maia

Lugar de bike é na rua

Dias depois da morte de ciclista atropelada, repórter do Vozerio (segunda ciclista da foto) testa como é pedalar em ruas sem ciclovia no subúrbio do Méier, ao lado de ativistas do Bike Anjo. Bairro tem debate hoje sobre o tema.

Foram cerca de 40 minutos enfrentando motoristas mal educados, elevações no asfalto e buracos, ao pedalar com um grupo de ativistas do ciclismo, do grupo Bike Anjo, no Méier, Zona Norte do Rio. Problemas encontrados também em outros bairros do Rio, como em Botafogo, onde a ciclista Julia Rezende, de 19 anos, foi atropelada no último dia 11. Tragédia que é assunto hoje, na “Roda de conversa: bicicleta no subúrbio”, às 10h, no Jardim do Méier. O evento tem entre os organizadores o aprendiz de mecânico Renan Braga.

“A ideia é sair da bolha de cicloativista e conversar numa linguagem de rua, com um papo bem reto, para falar desde ciclovia e ciclofaixa até como a gente pode participar dos projetos cicloviários. Nós conhecemos essa realidade melhor”, diz Renan.

Ele, a arquiteta Priscila Brum, de 28 anos, o escritor Maurício Maia, de 54, e a consultora digital Vivi Zampieti, de 35, me guiaram por um percurso que começou na Praça Agripino Grieco, foi até a Rua Itobi e retornou pela Dias da Cruz, a principal do bairro. O percurso todo foi feito em alerta, em especial nas vias principais.

Pedalando enfileirados, sempre com um deles atrás de mim, me senti acolhida para enfrentar carros e ônibus que teimam acreditar que a rua não é espaço das magrelas. Os motoristas, protegidos por seus veículos e estressados com a hora do rush, nos colocaram em risco diversas vezes. Alguns taxistas tentaram cortar o grupo, principalmente em vias mais movimentadas, como a Rua Dias da Cruz. Especificamente, na Magalhães Couto, um deles acabou levando uma bronca do grupo ao tentar avançar o sinal e ficar parado na faixa de pedestres.

Os cicloativistas usam várias técnicas e instrumentos para escapar dos riscos e ocupar seu lugar no trânsito. Sinalizações com o braço, apitos e sinetas são algumas maneiras de lembrar que não só os motorizados estão ali. Este comportamento aliado ao fato de estar em grupo deu mais confiança, principalmente em momentos em que precisava tomar outra via, como na saída da Dias da Cruz para a Hemengarda, onde o tráfego é intenso.

Precisávamos também estar atentos às ondulações e buracos no asfalto. A péssima conservação não causa grande impacto aos motoristas, mas é fator crucial para provocar desequilíbrio e acidentes de ciclistas. E não houve uma rua na qual não encontrássemos esses problemas. Saindo da Rua Medina para a Venceslau Brás, tive um leve desequilíbrio, que felizmente não me fez cair.

Ao fim do percurso, percebi que andar de bicicleta não é só um meio de transporte, mas um posicionamento político, que demanda uma cidade com mais infraestrutura e planejada não só para os mais fortes, como ônibus e carros, mas também para aqueles mais vulneráveis, como ciclistas e pedestres.

Transporte de duas rodas

Os cicloativistas tentam desmitificar o uso da bicicleta como meio de transporte. Priscila, que pedala cerca de 600 quilômetros por mês, conta com naturalidade que, em seu último semestre na faculdade de arquitetura e urbanismo, uma vez por semana, costumava sair do Méier para ir até a Barra da Tijuca, na Zona Oeste, assistir às aulas. “Tinha de ir por dentro de Jacarepaguá. Demorava cerca de 1h20. O único meio de transporte mais rápido era o carro, indo pela Linha Amarela.”

Para que as pessoas passem a enxergar a bike além do lazer, é preciso repensar o planejamento do espaço urbano. O grupo acredita que as ciclovias precisam ser planejadas como parte do sistema de transporte e reivindicam uma secretaria de mobilidade urbana, que pense os modais de forma conjunta.

“Medidas como ciclovias são para curto e médio prazo. Queremos que a cidade seja pensada para o ciclista, com medidas para daqui a 30 anos” opina Renan, que reclama ainda da falta de participação dos cidadãos. “Queremos ajudar, mas fazendo acontecer desde o início dos projetos, e não com a prefeitura apresentando eles prontos”.

Exemplo europeu

O médico Fred, de 43 anos, morador de Botafogo, vai todos os dias trabalhar em bairros como Copacabana de bicicleta. Além disso, duas vezes por semana, faz pedaladas de estrada. Já viajou de Berlim a Praga e vê diferenças cruciais do Rio para outras grandes metrópoles: “As ruas estreitas e sinalização precárias aqui dificultam. Além disso, uma boa parte das ciclovias são só para lazer - não são de interesse da mobilidade. Em relação a outros lugares do mundo, a estrutura urbana e a cultura e educação do motorista frente aos ciclistas são muito diferentes”.

Os candidatos à prefeitura do Rio abordam o tema de formas distintas em seus programas de governo. Marcello Crivella, do PRB, propõe uma parceria com o CREA-RJ para reforço da estrutura da ciclovia Tim Maia, até 2017. Enquanto isso, Marcelo Freixo, do PSOL, promete expandir as ciclovias e instalar bicicletários nas estações de trem, metrô e BRT, em especial na Zona Norte e Oeste.

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