Reportagens

  • Compartilhe:
Tráfico de armas 22 / 11 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

Guerra ao fuzil

Entre janeiro e setembro de 2016, mais de 220 fuzis foram tirados de circulação na Região Metropolitana do Rio. O grande número de apreensões transformou a arma em prioridade do novo secretário de segurança.

Foto: Fuzil apreendido pela Polícia Federal, em Inhaúma, zona norte do Rio (Polícia Federal/FotosPúblicas.com)

O inimigo público nº 1 do novo secretário de segurança é um velho conhecido. O combate ao fuzil foi escolhido como prioridade por Antônio Roberto Sá, no cargo há cerca de um mês. Segundo o sucessor de Beltrame, o grande número de apreensões dessas armas de alta letalidade mancha a imagem da cidade no mundo inteiro. "Temos que interromper a rota de fuzis para os traficantes", afirmou Sá em entrevista ao jornal O Globo. A questão deve receber atenção especial da polícia nos próximos meses.

"O problema desse tipo de armamento é seu alto poder de destruição", explica Ivan Marques, diretor executivo do Instituto Sou da Paz. Se um tiro de fuzil atinge um braço ou uma perna, a vítima perde o membro na hora. Se o alvo alcançado for o rosto, metade da cabeça vai embora. O acesso a esse tipo de experiência tem um custo relativamente baixo. Por 200 reais, é possível comprar uma arma do tipo no atacado na Ásia ou na África. No Rio, um dos modelos mais comum é o AK-47, criado há 60 anos na União Soviética, com mais de 100 milhões de unidades vendidas e presente na bandeira de Moçambique. "Caminhões, barcos e contêineres são alguns dos meios mais usados por contrabandistas para trazer fuzis para cá", conta Vinicius Cavalcante, diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança (ABSEG). Segundo ele, países como EUA, China e Suíça são alguns dos fornecedores.

De acordo com os números do Instituto de Segurança Pública (ISP), mais de 220 fuzis foram retirados de circulação na região metropolitana do Rio (RMRJ) entre janeiro e setembro desse ano. No topo do ranking das apreensões, está a região de Acari, Barros Filho, Costa Barros, Parque Colúmbia e Pavuna (veja no mapa acima). Não por acaso, essa área da Zona Norte tem se destacado por conflitos envolvendo polícia e traficantes nos últimos tempos. Um levantamento do Instituto Sou da Paz mostrou que o Rio é o único estado brasileiro com presença significativa de fuzis entre as armas apreendidas. Eles foram 3,3% do total por aqui, contra menos de 1% no Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo em 2014. Segundo especialistas, um dos fatores para tal disseminação é o bom desempenho em combates de longa distância, como os verificados em favelas. Um projétil disparado por esse tipo de equipamento é capaz de atravessar dois quilômetros sem parar.

O decreto 3.665, de 2000, estabelece que apenas pessoas e instituições autorizadas pelo Exército podem ter porte de fuzis. Mas, na prática, criminosos têm amplo acesso à arma, que tem capacidade de disparar até 800 tiros por minuto. Por outro lado, a Polícia Militar (PM) também faz um uso indiscriminado do item no Rio. Tanto que, desde agosto, vem substituindo o equipamento por carabinas, menos ofensivas (saiba mais no fim do texto). "Do ponto de vista técnico, elas são mais adequadas que o fuzil, em função do alcance intermediário de sua munição, de cerca de 150 metros", explica Vinicius. "O fuzil é uma arma de guerra, que aumenta o número de inocentes feridos por balas perdidas", afirma Ivan. Na prática, alguns especialistas entendem que a presença do fuzil têm criado uma sensação de insegurança em zonas de guerra onde não há conflito deflagrado, como Copacabana, Ipanema e Leblon. "O medo se tornou um operador político para se promover a ordem. O resultado disso é uma sociedade acuada", resume Pedro Paula Gastalho de Bicalho, psicólogo e professor de criminologia da UFRJ.

Coqueluche

"Até os anos 90, a arma coqueluche no Rio era a submetralhadora", diz Vinicius. Modelos como a israelense UZI, que lembra uma furadeira, e a americana Ingra, definida como "pistola-metralhadora", marcaram época. Mas uma onda de assaltos a carros-fortes no começo da última década do século XX tirou a vez das armas de pequeno porte. Com capacidade de perfurar os veículos blindados de então, fuzis AR-15 e M-16 trazidos de Miami começaram a roubar a cena. Para a novidade migrar dos assaltos para o tráfico, foi um pulo. Enquanto os bandidos saíam na frente, a polícia ainda marcava passo. Só o Batalhão de Operações Especiais (Bope) contava com equipamentos do tipo à época e, mesmo assim, em quantidade reduzida. A disparidade de forças fez com que o estado começasse a adquirir pequenas quantidades de FAL, modelo fabricado na Bélgica e mais conhecido por aqui como "sete meia dois". O apelido vem do calibre de 7,62 milímetros de suas balas e o "pa pum" característico de seus disparos é um som famoso nas favelas. As compras começaram no governo Marcelo Alencar (1995-1999) e não pararam mais.

"No Rio, entendeu-se que fuzil de bandido se combatia com fuzil de policial", conta Ivan. De acordo com Vinicius, a escolha errada do ponto de vista técnico servia de garantia para os agentes. "Com o fuzil, o PM não se sentia inferior. Surgiu uma escalada, um jogo de força", afirma. Do lado dos traficantes, houve apenas um fornecedor de armas desse tipo durante um determinado período. Isso tornou comum que as facções comprassem até itens defeituosos para que rivais não tivessem acesso a esse tipo de armamento. Já a polícia passou a investir em outros modelos, como o M-16. Duas mil unidades foram compradas após o sequestro do ônibus 174, em 2000. Mas a falta de munição apropriada chegou a impedir que os novos policiais fossem treinados para usar o item, conforme denunciou o especialista em segurança Rodrigo Pimentel em entrevista à revista Trip em maio de 2001. "Se eu tenho medo quando vejo um policial com fuzil na rua, imagine a população", afirmou ele na ocasião.

Essa verdadeira corrida armamentista transformou o fuzil em um personagem típico da paisagem carioca. No morro, ele passou a frequentar os bailes. Virou o "bico", a "vassoura". Ferramenta de sedução e sinônimo de poder na mão dos bandidos, de acordo com estudos como Coisas da Vida no Crime, da antropóloga Carolina Grillo. No asfalto, garantiu lugar marcado do lado de fora da janela das viaturas da PM. Lançado no fim dos anos 1990, o Rap das Armas descreve a invasão de uma favela citando AR-15, AK-47, M-16 e outros itens do tipo. Um deles é o M-24 ou "ponto cinquenta". Capaz de derrubar aeronaves, esse modelo teve sua primeira unidade apreendida no Rio só em 2008, durante uma incursão na Vila Cruzeiro.

“Tudo quanto é bandido arrasta de uma perna.
É de tanto carregar fuzil do mesmo lado”
(Piada dita por moradora de favela e citada na tese de doutorado Coisas da Vida no Crime, de Carolina Grillo)

A popularização do fuzil coincidiu um dos períodos mais violentos da história do Rio. "Os policiais apresentam hoje casos de stress pós-traumático em níveis infinitamente maiores do que qualquer outra categoria", afirma Pedro. De acordo com o psicólogo, sintomas como insônia e dores musculares são comuns na corporação e se tornam mais evidentes na hora em que o PM vai dormir. "O cara deita recheado de pensamentos que tiram seu sono", sintetiza ele. A situação de quem vive em comunidades não é muito diferente. "Faço atendimento psicológico de moradores da Maré na UFRJ e a maioria dos casos que recebemos está relacionada à questão da violência urbana", conta Pedro. Apesar da política de pacificação inicialmente ter diminuído o uso de fuzil pelo tráfico, o número de apreensões na RMRJ tem crescido nos últimos três anos. Em 2013, foram 230; Em 2014, 264; Em 2015, 330.

A missão a que o novo secretário de segurança se propõe é difícil, mas não impossível. "A saída para tirar o fuzil do Rio é a investigação", afirma Ivan. Ele destaca que esse tipo de arma não é fabricado no Brasil. Por isso, descobrir as formas pelas quais ela chega ao nosso estado pode ser a chave para tirá-la da mão dos traficantes. Além disso, o especialista acredita que o uso do equipamento deveria ser restrito às forças de elite da polícia, em função do seu alto poder de destruição. "Hoje, não dá para tirar o fuzil do policial de uma hora para a outra", pontua Vinicius, que concorda que desarmar os bandidos deve ser uma prioridade. "É preciso tirar das mãos de garotos armas que podem provocar um estrago sem paralelo", conclui.

O fuzil no jornal

Ao longo dos últimos 20 anos, o noticiário carioca registrou a ascensão do fuzil. De arma usada em assaltos a carros-fortes, ele se tornou uma das principais preocupações da área de segurança pública

Assalto a carro-forte
Dois carros-fortes da transportadora Brinks, já equipados com novo sistema de blindagem antiassaltos, foram assaltado na manhã de ontem na Rodovia Washington Luiz, na altura de Campos Elíseos, Duque de Caxias (RJ). Vinte bandidos, armados com fuzis AR-15, metralhadoras e granadas, levaram CR$ 40 milhões - todo o dinheiro que estava nos dois veículos.
(JB, 24/03/1994)

Dossiê revela o poder do tráfico
O governador Anthony Garotinho entrega hoje à CPI do Narcotráfico relatório preparado pela Polícia Civil mostrando como o tráfico domina 180 favelas cariocas. O dossiê de 50 páginas identifica pontos de vendas, os chefes do tráfico e o poder do "exército" de mais de 900 homens, com 670 fuzis e pistolas a serviço do comércio de drogas.
(JB, 04/11/1999)

Tráfico tem exército de 10 mil homens no Rio
Cerca de 1 milhão de pessoas, um sexto da população do município do Rio, moram em 800 comunidades carentes. Seu cotidiano é marcado pelo domínio exercido nestas áreas por um exército clandestino de 10 mil homens ligados a organizações criminosas como o Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos, que controla o tráfico na cidade. Levantamento da Divisão de Repressão a Entorpecentes calcula que apenas o Complexo do Alemão, conjunto de 11 favelas no subúrbio onde foi torturado e morto o jornalista Tim Lopes, aquartele 500 homens atuando no comércio ilegal de drogas, com arsenal de 250 fuzis, pistolas e granadas.
(JB, 16/06/2002)

Polícia do Rio apreende mais de 2.000 fuzis nesta década
As polícias civil e militar do Rio de Janeiro apreenderam 2.141 fuzis em todo o Estado de 2000 a junho deste ano. O total de armas seria suficiente para abastecer ao menos 13 batalhões da PM e não chega nem perto do arsenal que está nas mãos dos traficantes cariocas. Segundo policiais ouvidos pelo R7, só o complexo de favelas do Alemão, na zona norte, tem cerca de 1.500 fuzis, armas de uso exclusivo das Forças Armadas e das polícias.
(R7, 04/10/2010)

Polícia Militar do RJ substitui fuzis por carabinas
A Polícia Militar iniciou esta semana a substituição de fuzis por carabinas .40, armas que não dão rajadas e cujos disparos têm menor impacto. A troca, que foi anunciada há oito anos pelo estado, tem como objetivo diminuir os riscos de morte por bala perdida. (...) Os policiais da UPP terão as duas opções de armamento e, posteriormente, será avaliada a necessidade de substituição definitiva do armamento.
(G1, 25/08/2016)

  • Compartilhe:

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre violência

Testemunhas contam o que viram de um dos anos mais agitados dos últimos tempos

A nau sem rumo da segurança pública

Para o sociólogo Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV, lideranças do Rio precisam parar de reduzir a segurança pública a uma mera gestão da legislação penal e das instituições policiais

Favelas do Rio amargam abril violento

Apenas no último mês, PM e traficantes mataram pelo menos 15 pessoas no Jacarezinho, na Mangueira e em outras comunidades

Repórter, profissão de risco

Segurança de jornalistas que cobrem protestos e acompanharão Rio 2016 preocupa Repórteres Sem Fronteiras

Mais sobre Rio de Janeiro

Curso de idiomas ajuda refugiados a tentar um recomeço na região metropolitana do Rio

Que tal aterrar a Lagoa?

Livro reúne soluções mirabolantes já propostas para os problemas de um dos principais cartões-postais do Rio

Biblioteca Parque amanhece fechada no Centro

De acordo com Governo do Estado, fechamento é excepcional e prefeitura deve manter espaço aberto em 2017

De mulher para mulher: ocupação feminista no Rio

Rede Agora Juntas encerra neste sábado (17), na Glória, experiência que debateu direitos das mulheres

Mais sobre Segurança Pública

Moradores de favelas ocupadas revelam impressões, opiniões e expectativas em relação ao projeto

Cinco desafios para o próximo prefeito do Rio

Especialistas em saúde, educação, mobilidade, segurança e economia apontam os principais problemas que o novo gestor da cidade vai precisar resolver

Debate sobre políticas de segurança reúne moradores de Realengo

Inspirado na série OsteRio, evento "OesteRio" teve participação da pesquisadora Silvia Ramos

Cinco visões sobre o futuro do Rio

No aniversário do Rio de Janeiro, Vozerio conversou com especialistas para ouvir suas expectativas em relação ao futuro da cidade.
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino