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Burburinho 6 / 10 / 2016| Saulo Pereira Guimarães

Um novo olhar para o Rio antigo

Com imagens do fotógrafo amador Alberto de Sampaio, exposição "Lentes da Memória” apresenta cenas íntimas e descontraídas do Rio do começo do século XX. Mostra aberta nesta semana reúne 130 imagens que revelam a transformação da cidade

Foto: Morro Dois Irmãos, em 1920 (Alberto de Sampaio/albertodesampaio.com.br)

Uma paisagem urbana em preto e branco com tudo no seu devido lugar. Essa é a imagem que vem à cabeça quando se pensa em fotos do Rio no começo do século XX. Aberta nesta quarta (5) no Centro Cultural dos Correios (CCC), a exposição "Lentes da Memória” pretende mostrar um lado menos sisudo da cidade naqueles anos. A mostra reúne 130 retratos feitos por Alberto de Sampaio, advogado e fotógrafo amador.

Ao contrário dos registros de profissionais da época, as imagens de Alberto não se restringem à formalidade. Se uma foto sua destaca a imponência do Morro Dois Irmãos, outra pode revelar uma briga de Alvaro e Bento, filhos do advogado. "Na inauguração do Palácio Monroe, em 1906, Augusto Malta fez fotos que mostravam a modernidade da cidade para uma revista. Já Alberto optou por usar uma câmera portátil e captou o povo na rua naquele momento”, explica Adriana Pereira, autora da pesquisa que deu origem à exposição. “Ele tinha uma outra forma de ver a fotografia”, resume ela, que analisou quase 3 mil negativos para a mostra.

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Inauguração do Palácio Monroe, em 1906

Quem for ao CCC poderá conferir imagens feitas por Alberto entre 1888, quando ele começou a fotografar, e 1930, ano anterior ao de sua morte. Cenas como a de um pescador em ação com sua rede em Copacabana em 1906 são alguns dos achados da exposição. Além disso, a mostra conta com um espaço que reúne o material de laboratório do fotógrafo e outro que simula sua casa, em Petrópolis. “Grande parte da produção dele foi feita em casa para ser vista ali, por seus amigos”, explica Adriana.

A rua do Bispo liga as ruas Barão de Itapagipe e Haddock Lobo, no Rio Comprido. Foi nela que, em 1870, nasceu Alberto de Sampaio. Com a morte de sua mãe aos cinco anos, ele se mudou com o pai para Petrópolis. Aos 18 anos, entrou na atual Faculdade Nacional de Direito. Formado em 1895, Alberto voltou para cidade serrana, onde se casou, teve sete filhos e uma filha. O fotógrafo amador morreu em 1931.

Tempos modernos

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Briga entre os filhos Alvaro e Bento, em 1904

As imagens da exposição retratam um momento de transformação na história da fotografia. Até 1880, os negativos de colódio úmido dificultaram a popularização da atividade. Eles exigiam conhecimento de química para o uso e que a revelação fosse feita na hora do registro. O lançamento do negativo de vidro mudou esse cenário. Mais simples de ser produzido e usado, ele impulsionou o surgimento de fotoclubes de amadores como Alberto. Eles prezavam um tipo de foto com efeitos visuais, que se aproximava da pintura. Logo, ser amador virou sinal de distinção social e entender de fotografia, algo interessante. “Rui Barbosa e João do Rio tinham livros sobre o assunto em casa. Ninguém queria ser profissional. O chic era ser amador”, brinca Adriana.

Com o lançamento das câmeras portáteis em 1888, a fotografia se tornou algo ainda mais popular. Essas máquinas faziam registros de menor qualidade, mas permitiam maior mobilidade e também foram usadas por Alberto. “Ele passeou pelos três mundos. Fez a foto de paisagem, com jogo de luz e mais próxima da gravura. O registro mais profissional, brincando com a perspectiva como Marc Ferrez fazia. E também imagens do cotidiano, feitas com câmeras mais simples”, afirma a pesquisadora.

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Morro do Castelo, em 1906

Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo, Adriana descobriu Alberto durante um curso de fotografia, na Sociedade Petropolitana de Fotografia (Sopef) em 1999. A instituição recebeu em 1985 equipamentos e outros itens do advogado de Eduardo de Sampaio Filho. Neto de Alberto, ele chegou a ver seu pai usando alguns daqueles objetos e preservou-os como uma herança de família. Após entrar em contato com o material na Sopef, Adriana procurou Eduardo, que lhe deu acesso ao acervo centenário. “Logo que vi as fotos, achei as imagens belíssimas e senti que elas tinham algo de diferente, como se fossem modernas demais para seu tempo”, diz ela.

Lentes da Memória – A Descoberta da Fotografia de Alberto Sampaio
Local: Centro Cultural dos Correios (Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro - Rio de Janeiro)
Horário de funcionamento: de terça-feira a domingo, das 12 às 19h
Entrada gratuita

Portfólio

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