Pensatas & paixões

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Paixões 2 / 10 / 2015| André Costa

Um roteiro crítico das bibliotecas do Centro

Da precaução da ABL, que veta a corrupção de menores, à vivacidade da Biblioteca Parque Estadual, um passeio pelas bibliotecas do Centro, para descobrir como elas tratam quem quer estudar e trabalhar em um espaço público.

Como usuário das bibliotecas do Centro da capital, para ler, estudar e escrever, sou frequentemente tomado por desânimo.

Todas, em alguma medida, são dotadas de qualidades: acervos ricos, belos prédios, equipe cordial ou ambiente confortável.

Isto posto, várias delas transmitem uma sensação incômoda de desperdício ou mau uso. Não é que as bibliotecas precisem de grandes mudanças: o fundamental — um prédio e livros — geralmente tem ótima qualidade.

Ainda assim, no que deveria ser mais simples e trivial, os responsáveis pelos espaços às vezes parecem simplesmente ter se distraído ou descuidado. Em fatores que supostamente deveriam ser de fácil realização, mas que também são indispensáveis para quem quer estudar ou trabalhar em um espaço público em 2015 — como internet de qualidade, tomadas para computadores, luz natural, regras de uso que acolham os frequentadores —, as imperfeições são muitas, e frequentemente de caráter inusitado.

Com o propósito de averiguar a quantas andam as bibliotecas do Centro para quem deseja utilizá-las como espaço de trabalho, percorri um bom número delas ao longo de dois dias, atentando para suas normas, sua frequência, sua disposição física e seus serviços — para o estado em que se encontram e o que oferecem, em suma.

Fui acompanhado por um livro de bolso, um laptop e um caderno — isto é, os instrumentos de trabalho de um estudante ou de um leitor —, além de uma garrafinha d’água, para não precisar interromper o expediente.

O resultado de minhas impressões, na ordem de suas visitas, foi o seguinte:

Médiathèque (Maison de France): Localizada no prédio do consulado francês, na avenida Presidente Antônio Carlos, a biblioteca foi fechada para obras em agosto do ano passado, e, desde então tem funcionado em esquema provisório, com acervo reduzido, no corredor do setor do consulado dedicado à cultura.

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Maison de France: em reforma, mas com mesmo serviço hospitaleiro de sempre.

Em seu modo de operação normal, a Maison costumava ser um lugar acolhedor, de vista esplendorosa para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, ar-condicionado forte, cerca de 30 lugares, livros e dvds franceses à disposição (a maioria no original, mas também alguns em português) e equipe simpática e dotada de grande vontade de não atrapalhar seus frequentadores, permitindo que consultassem os próprios livros, bebessem da própria água e usufruíssem de ótima internet.

Desde o fechamento provisório, algumas novas regras foram instituídas no edifício onde está instalada. Uma breve inspeção na porta do prédio, com os seguranças verificando minha mochila, foi uma novidade, assim como um rápido cadastro na portaria.

Em relação à biblioteca em si, para quem está funcionando em modo de exceção, a Maison vai muito bem, obrigado. Os funcionários na entrada são os mesmos, os livros à disposição para empréstimo, se menos numerosos do que o normal, continuam a ser inencontráveis em qualquer outra biblioteca da cidade (há diversos lançamentos franceses, de filosofia a cinema, por exemplo) e l’ambiance, a despeito da ausência completa de janelas, tenta reproduzir como pode o original, com prateleiras espalhadas pelas paredes e uma longa mesa ao centro.

Enquanto estive lá, fui o único visitante, e recolhi-me a uma das poucas cadeiras disponíveis. A hospitalidade continua a norma da casa, e nenhum funcionário me procurou para me censurar pelo que quer que fosse.

Quando, todavia, depois de cerca de uma hora lendo, fui perguntar a senha do wi-fi, tive uma grande surpresa: não era para eu estar ali, uma vez que a biblioteca tem funcionado apenas com empréstimo de livros, e não como salão de leitura. Isto é, em tese, a biblioteca da Maison nem deveria aparecer neste texto, uma vez que, por ora, ela não é uma opção.

Surpreso pela minha ilicitude involuntária — e já ciente da senha do wi-fi — voltei para minha cadeira, onde fiquei por mais trinta minutos navegando na internet, até achar que já era hora de partir.

De acordo com as normas oficiais, portanto, só em novembro a Maison volta a se tornar um lugar para trabalho e estudo, quando termina a reforma do salão. Na prática, contudo, aqueles que até lá quiserem esperar na mesa do corredor, possivelmente poderão fazer isso, pois a gentileza dos funcionários talvez os impeça de pedir para um leitor se retirar.

Biblioteca Rodolfo Garcia (Academia Brasileira de Letras): A biblioteca da ABL é um lugar de regras abundantes e meticulosas. Para usá-la, além do cadastro na portaria do edifício, é necessário, em primeiro lugar, ter em mãos documento de identidade e comprovante de residência.

Depois disso, é preciso ler e assinar três formulários. O mais longo deles, de 10 páginas, merece atenção detalhada. Ele determina, por exemplo, que: não está autorizada a corrupção de menores por quem utilizar a internet; esquemas de corrente, pirâmide ou bola de neve também não são permitidos; “redes sociais“ (“Orkut, Friendster, Par Perfeito, Almas Gêmas, Fotolog, Blog, entre outros”), tampouco; caso algum frequentador se ofenda com conteúdo visto na internet, a biblioteca não possui responsabilidade sobre isso; não se pode enviar ou divulgar mensagens de “conteúdo falso ou exagerado, que possam induzir ao erro o seu receptor”; só se pode ir ao banheiro sem levar mochilas ou bolsas; short, camiseta e chinelo não estão liberados (“sendo assim fica liberado o uso de bermudão, isto é, até o joelho para ser usado na biblioteca (...) principalmente no verão do Rio de Janeiro”), e por aí vai.

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ABL: um lugar sério e de normas minuciosas.

Além destas regras, exige-se a leitura de outras advertências, e o fornecimento de informações para cadastro que vão desde o telefone de algum familiar – para a eventualidade de um piripaque por parte do usuário – ao endereço de seu empregador.

Em meio a esta superabundância de formalidades, a que mais incomoda, de longe, é a interdição do uso de teclados de computadores. Na biblioteca da ABL, laptops — assim como livros pessoais — são bem-vindos, mas não é permitida a “digitação de trabalhos no salão de leitura”. Quem quiser mandar um e-mail, escrever um texto ou realizar uma simples busca no Google deve se limitar a um dos três cubículos disponíveis – todos ocupados, em minha visita – ou à pequena baia de computadores.

Impossibilitado de escrever digitalmente, o usuário pode, além de usar o mouse para acessar a internet (ótimo wi-fi, aliás), se contentar com os livros do acervo, formado sobretudo por obras de literatura. Raridades estão disponíveis para consulta, e empréstimos também são uma possibilidade para os mais assíduos.

A respeito do público, o belo e amplo salão, de cerca de 60 lugares, estava cheio de estudantes, sobretudo concurseiros e pesquisadores, silenciosamente tomando notas em seus cadernos. As persianas totalmente fechadas e os bustos de imortais à volta acrescentavam gravidade à cena.

Seria um privilégio saber o que aquelas dezenas de pessoas, muitas usando computadores literalmente intocados, pensam do espaço, uma vez que pareciam ir ali com frequência. A norma do silêncio, entretanto, é uma das poucas vigentes que consigo facilmente compreender, de modo que preferi sair sem dizer nada.

Biblioteca Euclides da Cunha (Palácio Capanema): Talvez isso se deva ao único usuário que lá estava em minha visita — um jovem cochilando inclinado sobre o próprio livro numa mesa ao fundo —, mas a biblioteca do Palácio Capanema parece se encontrar em um estado de dormência.

Até algumas décadas atrás, ela certamente era uma das melhores da cidade. Com cerca de 50 lugares divididos em mesas grandes, espaçosa, provida de curvas niemeyerianas, a biblioteca ainda mantém parte de seu mobiliário original de mais de 60 anos, incluindo aí as estantes que guardam as fichas catalográficas do acervo de 150 mil livros.

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Capanema: biblioteca adormecida.

A não digitalização do catálogo dá a dica do que está por vir: a biblioteca não disponibiliza wi-fi para os visitantes.

Como resultado, aquele que poderia ser um dos melhores espaços na cidade para quem deseja trabalhar encontra-se abandonado, vazio e desalentador.

O mais lamentável é que seria bastante simples fazer a gigante acordar: a atmosfera da década de 1940 é formidável; já há tomadas; as janelas inesperadamente dão conta do recado e mesmo a ausência de ar-condicionado não torna o calor insuportável; o consequente barulho dos ônibus, se não ajuda, também não atrapalha a concentração (o trânsito é um dos poucos lugares onde encontramos o silêncio na atualidade, dizia John Cage); as normas da casa são bastante simpáticas, oferecendo empréstimos e permitindo a entrada de material próprio, incluindo livros e computador.

Em tese, bastaria, portanto, assinar um servidor de internet, para que suas mesas voltassem a estar cheias de gente — e não é de se desconsiderar que até mesmo o jovem adormecido ao fundo se sentisse mais estimulado a acordar.

Real Gabinete Português de Leitura: Possivelmente a construção mais encantadora da cidade, várias vezes eleita uma das bibliotecas mais bonitas do mundo, está há dois meses em reforma para restauração da abóbada, com conclusão prevista para o fim do ano que vem.

Durante as obras, o lustre foi rebaixado para o centro do salão, e as mesas que ali ficavam foram deslocadas para os cantos.

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Real Gabinete: joia em manutenção. [Foto: Bolívar Torres]

Boa parte da mágica das estantes altas e cheias de volumes se perde na configuração provisória, problema que se acentua com os cochichos de turistas, menos avergonhados do que o costume, e com a movimentação de operários.

Ainda assim, o salão continua funcionando para quem quiser ali ler, com meia dúzia de cadeiras, todas ocupadas. Há internet sem fio, mas, na situação atual, não há tomadas.

Um problema antigo também persiste: o Real Gabinete permite somente a leitura de livros de seu próprio acervo, o que inviabiliza a frequência de quem estuda o que não está lá disponível. A norma parece não fazer grande sentido, uma vez que os pertences dos frequentadores ficam guardados em escaninhos do lado de fora, e um sistema de controle simples impediria roubos ou extravios.

Faria bem, deste modo, que a reforma não se limitasse apenas à arquitetura, mas se voltasse também para regulamentos obsoletos.

Biblioteca Parque Estadual: Quando propus este texto à minha editora, um problema que temia era a expectativa de a Biblioteca Parque Estadual ser a melhor do Centro, o que poderia gerar controvérsia, por se tratar de uma parceira do Vozerio.

Para provar independência jornalística, começarei, deste modo, por elencar seus problemas: a internet é instável e caiu duas vezes durante uma hora de uso; aquela região da Presidente Vargas fica vazia à noite e, suspeito, aos sábados; se antes havia filas para assistir a filmes, as novas regras de uso da DVDteca, que agora exigem agendamento prévio, fizeram com que várias cabines fiquem vazias; a comida do café é meio chinfrim.

Isso posto, a Biblioteca Parque Estadual continua a ser, de longe, a melhor do Centro da cidade.

A fazer jus ao nome Parque, nela, mais do que em qualquer outra, o frequentador sente estar em um espaço vivo, de convivência, troca, hospitalidade e mútuo aprendizado.

Isso se dá, como já foi falado, pela composição heterogênea de seu público, que foge do combo habitual de concurseiros + estudantes de pós-graduação e inclui também alunos de escolas públicas, moradores de rua, crianças, pessoas que nunca estiveram em uma biblioteca e agora vão lá sempre.

Manifesta-se também em seu acervo, disponível para empréstimo, que inclui de filosofia a enfermagem a quadrinhos e a jornais, além dos já mencionados filmes, sem elitismos, mas mesmo assim guardando opções para públicos especializados.

Pode ser percebido também na arquitetura, que aproveita a luz natural e é cheia de janelas, além de facilitar a circulação e a sociabilidade.

Há ainda as regras de uso, que admitem o uso de laptops, a entrada de livros pessoais e até a garrafinha d’água, incentivando os visitantes a se sentirem à vontade, e que ainda assim proporcionam um clima calmo e propício ao trabalho, não por meio de paranoias kafkianas, mas sim de um equilíbrio natural que surge entre os usuários, chamado bom-senso.

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Biblioteca Parque: espaço acolhedor para nosso tempo.

Poderiam ser citados ainda os múltiplos usos do espaço, que incluem debates, oficinas e peças de teatro, ou a mobília, que, além de vários tipos de mesa, conta também com poltronas, bancos e cabines individuais e coletivas, compreendendo que as necessidades de cada usuário são diferentes, e que a oferta de serviços também deve ser.

Em abril deste ano, por questões financeiras, a biblioteca reduziu seu horário de funcionamento, e deixou de abrir nos fins-de-semana. A repercussão negativa foi alta, e pouco depois o lugar voltou a funcionar aos sábados e ampliou também o horário em dias de semana. Já é um (re)começo, mas também pode se sonhar com o que dia em que, a exemplo do que já acontece em outras capitais, a biblioteca passe a ter um funcionamento ininterrupto. Em um país onde a maioria dos habitantes não leu um livro sequer no ano passado, espaços como a Biblioteca Parque Estadual são verdadeiros oásis.

Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB): Decerto há alguma razão arquitetônica para isso, mas não deixa de ser curioso que o salão de leitura da biblioteca do CCBB tenha se instalado onde poderia estar o cofre do banco, enquanto o banheiro possui bela vista para a Baía de Guanabara.

O confinamento total, acentuado por uma luz fria e pela decoração que não inclui nada além de mesas e cadeiras, com qualquer ponto do salão sendo visível de qualquer outro ponto, torna a experiência de se estar ali algo claustrofóbica.

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CCBB: salão espaçoso, mas onde livros pessoais não podem entrar.

É uma pena, porque o acervo das estantes, localizadas do lado de fora do espaço reservado apenas para leitura, dispõe de variedade e riqueza, indo de engenharia a livros raros de arte. Para agravar a situação, este acervo não pode ser consultado fora da biblioteca senão por pessoas cadastradas em outras instituições ou por funcionários do banco, o que ressalta a importância de um salão agradável.

Importância reforçada também pela política de uso atual, que, inacreditavelmente, não autoriza a entrada de livros próprios, e que permite apenas — embora a regra com frequência não seja cumprida — artigos de, no máximo, 20 páginas.

A internet, uma crítica frequente na reabertura da biblioteca após anos de obras em 2012, atualmente funciona bem, e provavelmente é ela a razão para o salão de 100 lugares estar usualmente cheio.

Os horários da casa também merecem elogios. Atualmente a única biblioteca do Centro do Rio (da cidade inteira?) a funcionar domingo é a do CCBB, e também é ela a que permanece aberta até mais tarde (21h).


Serviço:

Biblioteca Euclides da Cunha (Palácio Capanema): Rua da Imprensa,16 / 4º andar. De segunda a sexta, de 9h30 às 17h30. Tel: (21) 2220-4140.

Biblioteca Parque Estadual: Avenida Presidente Vargas, 1261. De terça a sábado, das 11h às 19h. Tel: (21) 2332-7225.

Biblioteca Rodolfo Garcia (ABL): Avenida Presidente Wilson, 231 – 2º andar. De segunda a sexa, das 9h às 18h. Tel: (21) 3974-2550

CCBB: Rua Primeiro de Março, 66 – 5º andar. De quarta a segunda, das 9h às 21h. Tel: (21) 3808-2020.

Médiathèque (Maison de France): Avenida Presidente Antônio Carlos 58 – 11º andar (até novembro, a biblioteca funciona excepcionalmente no 4º andar). De terça a sexta, das 10h30 às 18h30. Tel : (21) 3974 6669.

Real Gabinete Português de Leitura: Rua Luís de Camões, 30. De segunda a sexta, das 9h às 18h. Tel.: (21) 2221-3138.

OBS: A Biblioteca Nacional trabalha apenas com consultas a seu acervo e não permite a entrada de laptops, razão para sua omissão neste texto.

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Convidado

André Costa

André Costa, 28, é repórter do Vozerio e tradutor.

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