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Paixões 28 / 12 / 2015| André Costa

Um roteiro crítico das bibliotecas do Centro, parte II

Uma nova investigação sobre como as bibliotecas do Centro tratam quem as procura como local de trabalho ou estudo, do empoeirado Ministério da Fazenda à aconchegante sala de leitura do CCJF.

Na primeira edição do roteiro crítico das bibliotecas do Centro, falamos de seis bibliotecas. Apresentamos aqui mais seis, procurando responder à mesma pergunta da vez anterior: como estes espaços tratam quem os procura como local de trabalho e de estudo?

Em nossas andanças pelo Centro, mais uma vez encontramos bibliotecas mal utilizadas ou subaproveitadas, que, mediante pequenas adaptações, poderiam servir muito melhor ao público. Fatores como a disponibilidade de internet continuam a pesar, sugerindo que, para muitos órgãos, as bibliotecas não são tão importantes assim.

Por outro lado, encontramos também espaços dinâmicos e acolhedores, que provam que não é necessário grande coisa para receber e acomodar leitores e estudiosos.

Que salas de leitura e bibliotecas assim sirvam de exemplo para estas e outras primas esquecidaspela cidade.

Ministério da Fazenda: O prédio do Ministério da Fazenda possui elevadores de alta tecnologia: ainda no piso de embarque, antes de entrar no ascensor, o passageiro digita o andar para onde deseja ir. Um sistema automatizado calcula qual dos equipamentos pode fazer o trajeto de maneira mais rápida, e os percursos se realizam com o menor número possível de paradas.

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No Ministério da Fazenda, as buscas no acervo são feitas em fichas de papel

Do ponto de vista do usuário da biblioteca, as inovações param por aí. Inaugurada em 1944, a biblioteca do Ministério, localizada no 12o andar do edifício que já foi o maior da América do Sul, poderia se encontrar 60 anos no passado. Para realizar pesquisas no acervo, ainda é necessário vasculhar fichas catalográficas em papel. Não há internet. Pior: em conversa informal, uma funcionária afirmou que, com a exceção da diretoria, os funcionários da biblioteca não dispõem sequer de aparelhos telefônicos para trabalhar.

É uma pena, porque a biblioteca poderia facilmente se converter em uma ótima opção para quem quer trabalhar ou estudar no Centro. Ampla e bonita, conta com móveis de madeira maciça, poltronas, várias mesas e luz natural. Um ar-condicionado congelante — a exceção moderna do espaço — é outro ponto positivo, assim como o silêncio sepulcral — embora este talvez se deva à completa ausência de outros visitantes quando ali estive — e as regras de uso receptivas, que autorizam ao frequentador a consulta ao próprio material.

Tudo isto, entretanto, apenas reforça a sensação de subaproveitamento. A biblioteca tem cheiro de livro velho, e não minto quando digo que a poeira me fez espirrar algumas vezes.

Este abandono, que fique dito, com certeza se deve a altos escalões da Fazenda, e não à equipe, que parece se virar como pode. Uma árvore de Natal formada por livros de contabilidade e economia, dentre outros enfeites de fim de ano, me parecem prova suficiente de dedicação profissional.

Quanto ao acervo, importantes documentos da história econômica do país nos dois últimos séculos. Um projeto do Ipea tem, aos poucos, digitalizado e publicado este material no site http://memoria.org.br/acervo_bmf.php.

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No Museu Nacional de Belas Artes é permitido levar o próprio livro, mas ainda não há internet

Museu Nacional de Belas Artes: Reinaugurada em outubro, ainda precisa de pequenos reparos. Os funcionários da recepção do museu, por exemplo, ficaram surpresos com a notícia de que eu queria apenas ir à biblioteca, e precisaram conversar entre si para resolver se seria ou não necessário comprar um ingresso (não é).

Quanto à biblioteca em si, o salão de leitura é formado apenas por uma sala, com quatro mesas, cada uma delas com quatro cadeiras. O pé direito alto e dois grandes quadros decoram o lugar. É permitido levar o próprio livro, mas ainda não há internet.

No que diz respeito ao acervo, ele pode ser consultado na própria biblioteca, mas empréstimos não são autorizados. Uma coisa boa: as novas aquisições são atualizadas no site da biblioteca.

Centro Cultural da Justiça Federal (sala de leitura): A sala de leitura do CCJF, localizada no primeiro andar do edifício, é prática e eficiente. Conta com duas mesas, assentos confortáveis luzes superiores amarelas auxiliadas por luminárias individuais, sofazinhos, janelas, tomadas, wi-fi excelente e burocracia reduzida a zero. Quem quer ler alguma coisa ali, chega, senta onde bem entende, abre o próprio material ou um dos jornais diários disponíveis para leitura, e é isso.

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A sala de leitura do Centro Cultural da Justiça Federal é aconchegante e concorrida (Foto: Divulgação)

Como resultado, o aconchegante espaço, um exemplo de como fazer muito com pouco, anda bastante movimentado e concorrido.

Uma curiosidade: por algum motivo, o responsável pela sala de leitura considerou que seus frequentadores não eram maduros o bastante para acessar o que quisessem na internet, de modo que é impossível se conectar a Facebook, Youtube, Ok Cupid e sabe-se lá quais outros sites usando a rede do centro cultural.

Em relação à biblioteca em si, ela se localiza alguns pisos acima, e é bastante parecida com a do Museu de Belas Artes. O salão grande tem mesas vazias; a internet ali não é tão boa, e a frequência não é tão alta.

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A biblioteca do Instituto Goethe disponibiliza wi-fi gratuito

Instituto Goethe: Pequena, moderna, iluminada e simpática. Conta com doze assentos em mesas, mais algumas poltronas e sofás. Quem quiser, pode levar os próprios livros, ou então consultar o acervo da casa, que conta com edições recentes de revistas alemães, uma porção de obras no original e alguns livros em português.

Uma taxa semestral de associação é cobrada para empréstimos. A biblioteca também disponibiliza ótimo wi-fi, acessível mediante cadastro gratuito, e tomadas.

Cândido Mendes: A princípio, a biblioteca autoriza apenas a entrada de quem está ligado à Universidade Cândido Mendes ou a alguma outra instituição de ensino. Como disse um funcionário, no entanto, eles “infelizmente” não têm como controlar o acesso, de modo que quem quiser estudar ali, até segunda ordem, poderá fazê-lo sem maiores perturbações.

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O salão de leitura da biblioteca da Universidade Cândido Mendes é enorme, com mais de duzentos lugares

O salão de leitura da biblioteca é enorme, com mais de duzentos lugares, distribuídos em mesas compartilhadas, e espaços reservados para estudo em grupo, embora estes só possam ser usados por quem é ligado à Ucam. Para consultar o acervo, também é preciso estar vinculado à universidade, ou então ter cadastro em alguma outra biblioteca.

Um destaque pouco comum nas bibliotecas é a visão que se tem, perto da entrada, da Baía de Guanabara e da Praça XV.

No mais, a biblioteca poderia ser melhor cuidada: a iluminação é terrível e há poucas tomadas — para usá-las, inclusive, os estudantes trazem suas próprias extensões. Estes mesmos estudantes juraram que em geral o wi-fi do espaço é ótimo e aberto, mas, enquanto estivemos por lá, ele não funcionou.

IFCS: A biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Socias da UFRJ têm dois ambientes para estudo, ambos de acesso público. O principal, perto do acervo, é de longe o mais atraente, caracterizando-se por paredes antigas sem reboco, uma penumbra agradável, mesas individuais de madeira e uma tomada ou outra — "se você procurar encontra uma tomadinha", disse a bibliotecária (ela tinha razão, mas elas poderiam ser mais numerosas).

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No IFCS, empréstimos podem ser realizados para pessoas ligadas à UFRJ ou cadastradas em alguma biblioteca parceira

Nesta parte da biblioteca, é permitido apenas levar xerox, cadernos e computador. Sua principal deficiência é o calor: o espaço não tem ar-condicionado, e as janelas permanecem todo o tempo fechadas, o que, em dias quentes, torna a permanência ali um desafio.

A outra sala tem um número um pouco maior de assentos, autoriza a entrada de livros pessoais e conta com janelas abertas, o que, ao mesmo tempo em possibilita a respiração, aumenta o número de decibéis do ambiente consideravelmente.

Nos dois salões, a internet é boa, embora também bloqueie Facebook, Youtube e outros sites. Consultas ao acervo podem ser realizadas ali, e empréstimos podem ser realizados para pessoas ligadas à UFRJ ou cadastradas em alguma biblioteca parceira.


Serviço:

Universidade Cândido Mendes: Rua da Assembléia, 10 Sala 511. De segunda a sexta, das 8h às 21h. Tel.: (21) 3543-6458.

Centro Cultural da Justiça Federal: Avenida Rio Branco, 241. De terça a domingo, das 12h às 19h (sala de leitura). Tel. (21): 3261-2550.

Biblioteca Marina São Paulo de Vasconcelos (IFCS): Largo São Francisco de Paula, 1, sala 108. De segunda a sexta, de 8h às 20h. Tel.: (21) 2221-0034.

Instituto Goethe: Rua do Passeio, 62, 2° andar. Terça, de 10h às 13h e de 15h às 19h; quarta e quinta, de 15h às 19h; sexta, de 15h às 18h; sábado, de 10h às 13h. Tel.: (21) 3804-8204.

Ministério da Fazenda: Avenida Presidente Antônio Carlos, 375, 12º andar De seunda a sexta, das 9h às 17h. Tel: (21) 3805-4285

Biblioteca/Mediateca Araújo Porto Alegre (Museu Nacional de Belas Artes): Avenida Rio Branco, 199. De terça a sexta, das 10h às 17h. Tel: 3299.0629.

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André Costa

André Costa, 28, é repórter do Vozerio e tradutor.

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