Pensatas & paixões

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Paixões 9 / 04 / 2015|

Uma carioca em Jerusalém

Claro que o Rio faz falta, mas sair da corte me fez muito bem. No meu caso, morar fora fez com que eu passasse a enxergar o Rio sem os olhos de namorada apaixonada, que quase não vê defeito e, quando vê, releva.

Nunca na vida achei que pudesse deixar o Rio. Morria de orgulho do meu sotaque cheio de chiados, curtia sacanear os primos paulistas citando as inúmeras canções que exaltam a Cidade Maravilhosa e tinha como regra não arredar o pé da cidade no Carnaval e Reveillon. Mas a vida é cheia de reviravoltas e em 2011 eu vim parar do outro lado do mundo, em Jerusalém.

O começo, obviamente, não foi fácil. Não pela falta de praia — sou uma carioca da gema que só gosta da praia à noite, para olhar —, mas por não entender a cidade e seus códigos. Sentia falta da água de côco, do chope pós trabalho, dos amigos e de tudo que me era familiar. No primeiro ou no segundo mês, cheguei a ligar pelo Skype para o meu botequim, de tanta saudade!

Eu odiava Jerusalém, achava que o bom era Tel Aviv, porque se parece com o Rio. Mas aos poucos a terra santa foi ganhando meu coração.

Em Jerusalém eu descobri que andar na rua com segurança não é um luxo, é um direito

Me acostumei a caminhar pela cidade. Quase não pegava ônibus. Um prazer andar em qualquer horário do dia ou da noite, sozinha ou acompanhada, sem a preocupação de segurar a bolsa perto do corpo, ou olhar em volta e calcular se devo ou não atender o celular. Foi engraçado: quando resolvi vir para cá, muitos amigos se mostraram preocupados com a “violência” da região. Aqui eu descobri que andar na rua com segurança não é um luxo, é um direito.

Nos bares que passei a frequentar, encontrava os novos amigos, sentados bebendo ou atrás do balcão trabalhando. Eu mesma passei a trabalhar em um. Carregava caixas de bebidas, limpava chão e banheiro, servia mesas, falava com os clientes de igual para igual. Nunca nenhum dono de bar revistou minha mochila ou me fez contar a quantidade de álcool das garrafas. E se quisesse beber uma cerveja durante o trabalho, cheers! Percebi como é bom viver numa sociedade mais classe média e menos serviçal. Nunca me senti inferior por estar servindo, nem superior por estar sendo servida.

O turbilhão de culturas de Jerusalém me encantou. A Torre de Babel dos idiomas, os diferentes códigos de vestimentas, religiosos, seculares, modernos, antigos, cada um faz o que quer. Eu, que nunca curti essa característica do Rio, de estar sempre cuidada, de unha feita, depilada, cabelo cortado, amei. Perdi a conta do número de vezes que saí de pijama pro meu bar da esquina, para, como no Rio, tomar cerveja e jogar conversa fora.

E de repente, não mais que de repente, descobri um lugar que eu amo tanto quanto a minha Cidade Maravilhosa.

Claro que o Rio faz falta, mas sair da corte me fez muito bem. Morar fora é uma grande aventura, cheia de descobertas e experiências novas. No meu caso, além de tudo isso, fez com que eu passasse a enxergar o Rio sem os olhos de namorada apaixonada, que quase não vê defeito e, quando vê, releva.

Da primeira vez que voltei, depois de uma ano e meio, estranhei tudo. Me lembro do choque ao atender um telefonema dentro de uma agência bancária e ser repreendida pelo segurança dizendo que que era proibido. Como é que é? Para prevenir assalto e violência é mais fácil cercear o cidadão? Que loucura!

Me dei conta também que, ao contrário de Jerusalém, no Rio eu quase não andava a pé. É ônibus, táxi, metrô. Claro, o Rio é muito maior, mas existem distâncias super-razoáveis de se caminhar, só que eu não caminhava. Seria por medo ou pela “segurança”? Não pode ser só o calor.

Achei o Rio chato. Foi difícil ver a cidade como ela é: linda, mas cheia de defeitos, centrada no próprio umbigo

Estranhei muito ver casais no final de semana com uma, no máximo duas crianças, com uma babá de branco. Não que não existam babás aqui, existem, mas são jovens universitários e paga-se por hora. Fim de semana não há por que ter uma babá se a criança está com os pais.

E o louco culto ao corpo, obediência cega a certos padrões de beleza, moda, comportamento. Por que tudo precisa ser igual? Da manicure à depilação, da meia esticada no tornozelo à nova taqueria-koneria-cevicheria (seja lá qual for a opção atual).

Achei o Rio chato. Foi difícil ver a cidade como ela é: linda, mas cheia de defeitos, centrada no próprio umbigo. Ainda amo a cidade, muito. E quero voltar a olhá-la com ares apaixonados, não de namorada inebriada, mas de mãe, que quer ver o filho crescer para se transformar num adulto bacana, responsável e consciente.

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Mila Chaseliov

Formada em comunicação pela UFRJ e mestranda no Departamento de Estudos Romanicos e Latino Americanos da Universidade Hebraica de Jerusalém. Também escreve no site Conexão Israel (...)

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