Pensatas & paixões

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Pensatas 11 / 08 / 2015|

Varandas

Dentre todas aquelas varandas que eu nunca antes tinha visto sequer acesas, eu olhei para o apartamento do velho: na floresta da velha, uma pequena luz antiga como eles, pra acarinhar as plantas na noite do frio; e na varanda do velho, o estêncil da cadeira de rodas, o varal vazio e a cadeira vazia.

Da minha varanda, eu vejo 91 varandas e mais de 500 janelas. Como trabalho em casa e tenho que organizar o meu tempo e a minha relação com o espaço, costumo frequentar determinados cômodos de acordo com a hora do dia. A varanda eu frequento em horários fixos, das 7h às 8h e das 17h às 18h, diariamente. Quando não tem ninguém em casa e eu faço a minha batata com abobrinha, ou esquento um arroz com feijão — tudo sempre com sal e pimenta do reino —, levo a comida na panela e como com uma colher em pé ou sentado na cadeira na varanda: nessa hora decido a direção para onde vou olhar; dependendo da luz, no morro do Zinco o céu fica mais azul, e sobre ele se vê o azul do mar no céu — e pro outro lado a linda linha curva do morro do Turano, com suas janelas viradas pra onde o sol se põe, todas pintadas de laranja.

Tem dias em que em vez de escolher um dos lados, eu olho para o meio, onde tem os prédios com as várias varandas e janelas. Eu me interesso pelo jeito que as pessoas vivem, logo me interesso pelo espaço moldado por esse jeito de viver das pessoas. A disposição dos móveis, as plantas, os animais, as grades, as cores, as escolhas das luzes, amarela ou branca: no sétimo andar, uma pessoa com uma luz verde, numa sala de paredes verdes — não sei se ela sabe, mas de dia a luz bate lá dentro e rebate com um verde cor de floresta do Peter Pan. No quinto andar, todos os dias uma criança chega em casa e se balança como barco no mar na rede que tem pendurada na varanda. O único peixinho do mundo a se divertir numa rede. No segundo, todos os dias depois do almoço e do jantar, a moça vai à varanda e fuma um cigarro sentada na cadeira de metal de bar antigo, branca, com anúncio da Brahma num quadrado vermelho, que fica no mesmo lugar, como se fosse de concreto, onde ela senta do lado de fora pra conseguir assistir de dentro a TV — durante os anúncios ela olha às vezes pra onde bate o cigarro e e às vezes pro celular. No sexto, um rapaz rasgou a telinha (para crianças e animais não caírem) e consegue colocar a mão com o baseado pra fora, virando ele de um jeito na quina do prédio que joga a fumaça pro outro lado do bloco — as janelas da casa dele têm um vidro fumê roxo que lembra discoteca. Uma varanda cheia de bolas de futebol, outra com um pôster do Lindberg lacrando a janela, uma outra com a bandeira do Brasil, outra com a do Botafogo e sua estrela solitária, outra com duas cadeiras de jardim viradas uma de frente uma pra outra. Têm varandas fechadas que viraram depósito de qualquer coisa ou se tornaram quarto, ganharam janelas e grades. Têm as varandas totalmente vazias. Só com os ossos da antena da TV a cabo ou do ar condicionado.

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Foto: Carlos Meijueiro

Diante de todas essas varandas todos os dias, tirando esses momentos corriqueiros e despretensiosos, só quem aparece na varanda sou eu — antes ainda tinha um cachorrinho que vivia preso na varanda, o que era muito angustiante de olhar, e que agora cresceu e sumiu da varanda, ou foi pra dentro ou foi mandado embora de casa. Até onde eu posso enxergar, só vejo mais uma pessoa: um senhor que mora no 11° andar. Um velhinho desses com mais de 80 anos. A janela é fechada com filme laminado, e das duas varandas do apartamento dele, uma é cheia de plantas igual uma floresta, onde a mulher dele cuida de tudo todos os dias como se fosse uma pintura — o desenho da vida dela —; e a outra tem fundo branco como o prédio inteiro, com uma cadeira de rodas que não sai lugar — de longe parece até estêncil —, e do outro lado um varal, e entre eles uma cadeira apontada para onde o sol abraça o Turano inteiro. Do lado dessa cadeira do lado de fora, tem uma cadeira do lado de dentro, na mesma posição. Ao varal ele vai todos os dias de manhã e de tarde, estender, como quem faz tricô, as dez camisas de cores claras que ele tem. Ao longo do dia, ele sempre dá uma espiadinha, e vai às cadeiras dele várias vezes olhar o mundo.

Como já virou personagem da minha vida, os amigos que moram aqui em casa dizem que o veem em várias horas diferentes — um deles afirma que já viu o velho olhando o mundo às 2h30 da manhã. Imagino o que ele vê. Quando ele resolve ficar em pé na varanda apoiado nas paredes e nos ferros, e o vejo chegar devagar, com as pernas trêmulas de tanto chão — eu me emociono. E ele está sempre lá, olhando. Na direção dos olhos do velho, no terreno quase em frente ao prédio em que moro, demoliram a escola Santa Dorotéia, e estão subindo um prédio grande, tipo o do meu, e tipo o do velho. Tapumes são muros de cemitério. Num buraco gigante, todos os dias sobe um pavimento novo: dois L de cabeça pra baixo, amarelos e gigantes — da altura do topo — e, quando transportam as coisas pelo ar na obra, uma sirene toca de dez em dez minutos mais alto que as minhas ideias avisando que algum material voa sobre as cabeças dos homens da obra. Homens de macacões iguais e capacetes diferentes — óculos escuros para a luz nos olhos e fones de ouvido para tentar não esquecer o silêncio; na calçada, uma loja, e homens de calça azul-marinho da cor da gravata e camisa social branca pra dentro, saem da salinha com ar condicionado e mesas redondas só pra ir à calçada mostrar às famílias o sonho ainda em concreto. Imagino se o velho olha todos os dias para não esquecer aquela composição: o amarelo do sol se derretendo no laranja do morro. Se o tempo não levar, esse prédio vai sequestrar aquela imagem da memória do velho. Então eu imagino o que ele vê: ele vê a saudade.

Hoje à noite, vários vizinhos foram às suas janelas e varandas pra bater panelas e xingar a presidente do Brasil. Na minha sala, dois amigos começavam a aprofundar sua amizade tocando música juntos. Como eu estava gravando o áudio, fui à varanda gravar o som que vinha de fora. A mulher do segundo andar estava tão que feliz que filmava e acenava pro meu prédio — pela primeira vez ela olhava na minha direção, mas a luz da varanda estava desligada. Meu amigo me disse, temos o resumo: o prédio fazendo barulho com a panela, e a favela, o jantar. Pelo menos em volume, o resumo era esse.

Nas varandas do outro lado eu ainda vi: a mãe pedindo pra vó filmá-la segurando o neto na varanda enquanto batiam panela; um moleque fazendo um samba num tamborim; muitas famílias inteiras batendo panela e xingando a Dilma; uma mulher na bicicleta ergométrica e um homem beijando o gato na sala; um pai que distribuiu panelas nas mãos dos filhos que pareciam ter uns 11 anos – depois que acabou e o pai voltou pra sala e pra TV, o filho ficou lá batendo a panela e xingando a Dilma do mesmo jeito que seu pai lhe ensinou: vagabunda M, vaca U, filha da puta L, sapatão H, corrupta E, terrorista R.

Dentre todas aquelas varandas que eu nunca antes tinha visto sequer acesas, eu olhei para o apartamento do velho: na floresta da velha, uma pequena luz antiga como eles, pra acarinhar as plantas na noite do frio; e na varanda do velho, o estêncil da cadeira de rodas, o varal vazio e a cadeira vazia. As luzes da sala estão apagadas e, como uma moldura na janela laminada, é possível ver a luz do quarto acesa. Logo o silêncio volta, a areia do deserto volta a ocupar as varandas, e o velho também volta, refletindo a luz que ainda brilha no fim do mundo dele, enquanto aquele prédio branco não sobe na frente da sua vida.

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Carlos Meijueiro

Jornalista e produtor, integra o coletivo Norte Comum, que realiza projetos culturais na Zona Norte e na Baixada.

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