Debates

  • Compartilhe:
OsteRio 2 / 09 / 2015| André Costa

Vargas e Guinle: legado precioso para o Rio

Osterio dedicado à história reúne especialistas no político e na família para discutir como suas histórias entrecruzam-se entre si e com a história da sociedade carioca.

Os entrelaçamentos entre as histórias de uma personalidade pública, de uma família, do país e da cidade do Rio de Janeiro foram o assunto em pauta na edição mais recente do Osterio. Realizado nesta terça-feira (1º/09) no restaurante Osteria Dell’Angolo, em Ipanema, o encontro recebeu a socióloga Celina Vargas do Amaral Peixoto e o historiador Clóvis Bulcão para debater a importância e o legado de Getúlio Vargas e da família Guinle.

JPEG - 132.3 kb
Celina Vargas do Amaral Peixoto, fundadora do CPDOC e neta de Getúlio Vargas [Foto: Pedro de Souza].

Primeira a falar, Celina combinou conhecimento histórico e emoção em sua participação. Afinal, Celina, além de fundadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), é neta de Getúlio, filha de Alzira Vargas. A memória do avô é um tema ao qual dedicou grande parte de sua trajetória acadêmica, enquanto a da mãe será resgatada em um livro atualmente no prelo.

A participação de Celina teve um teor altamente laudatório em relação ao antepassado — e a oradora se mostrou consciente disso. “Como neta de Getúlio, posso dizer tudo”, ela afirmou, ao analisar a situação do país até o fim da República Velha. “O Brasil até então era administrado como se fosse fazenda de café. A produção era voltada só para o mercado interno, a mão de obra, semiescrava”.

A modernização realizada por Getúlio ao longo de seus 19 anos no poder, com ênfase em suas leis trabalhistas, foram o foco principal de sua exposição. Da criação do Ministério do Trabalho, seu primeiro ato de governo em 1930, à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, passando pelo estabelecimento do salário mínimo, as políticas públicas de Getúlio voltadas para a regularização da vida profissional no país foram relembradas e exaltadas pela pesquisadora.

Mais tarde, na hora das perguntas da plateia, Celina explicou por que decidiu ressaltar um tema tão notório. “Quando escrevi [a palestra], pensei na Dilma. Acho que não se sabe mais falar em política pública e que não se sabe mais fazer política pública no Brasil”, disse. Lembrando que a CLT demorou mais de uma década para ser formulada e que sua elaboração envolveu figuras da estatura de Oliveira Viana e Joaquim Pimenta, a estudiosa enfatizou que programas a curto prazo acabam por se revelar inconsistentes em períodos mais longos.

“Não se pode deixar de reconhecer [em relação à CLT] que tudo foi pensado, refletido, incluído – e não se faz política pública se não for assim. Hoje não se pensa mais em políticas públicas. Faz-se um programa, como o “Minha casa, minha vida”, e se acredita que é uma política pública, mas não é. É preciso não só construir, mas construir, educar, dar transporte. Do contrário, o que se fez não se torna público, mas é apenas mais um lugar para inaugurar prédios”, afirmou.

Celina relembrou ainda parte da relação entre Getúlio, gaúcho de São Borja, e a cidade do Rio, destacando dois eventos simbólicos. Segundo a fundadora do CPDOC, no começo da Aliança Liberal, em 1929, os aliancistas foram proibidos pelo governo de falar em espaços fechados. Para sua assembleia, reuniram-se, então, na extinta esplanada do Castelo.

De acordo com Celina, a multidão que se congregou marcou simbolicamente a história política brasileira: “Neste dia foi introduzida uma categoria até então jamais vista no país: o povo brasileiro, numa proporção nunca antes vista”, afirmou.

Este mesmo povo voltaria a ser visto décadas mais tarde, após o suicídio do presidente em 1954. De acordo com o desejo da família, o caixão foi enterrado em São Borja. Para chegar à aeronave que a transportaria até lá, todavia, a caixa fúnebre foi antes passada adiante pelos braços da população – para Celina, outro marco incontestável da relação entre Getúlio e o Rio.

História de uma dinastia

Autor do livro “Os Guinle — A história de uma dinastia” (editora Intrínseca), o historiador e biógrafo Clóvis Bulcão começou sua exposição sobre a família reconhecendo a riqueza do material de que dispôs para a feitura de sua obra.

“Quando escrevia a biografia do Padre Antônio Vieira, achava que era muito mais difícil falar sobre uma figura do século XVI do que de pessoas do século XX”, disse. “Quando fui fazer biografia do século XX, descobri que ela não acaba – as histórias e fontes seguem surgindo, mesmo depois do término do livro”.

JPEG - 133.4 kb
Clóvis Bulcão, autor de "Os Guinle: A história de uma dinastia". [Foto: Pedro de Souza].

As histórias destacadas pelo professor do Instituto Superior de Educação (Iserj) no Osterio se destacam tanto por seu aspecto pessoal e íntimo quanto por sua importância para a sociedade carioca como um todo – se é que, neste caso, é possível realizar esta distinção. Esta fusão entre vida pública e privada se faz sentir já no trio que deu origem à linhagem na década de 1870: Cândido Gaffrée, seu sócio Eduardo Palassim Guinle e a esposa deste, Guilhermina. Segundo Clóvis, Cândido e Eduardo não se limitavam à parceria nos negócios, mas viviam também um triângulo amoroso com Guilhermina.

O historiador contou que a fortuna da família se desenvolveu a partir de um armarinho – o que não deve ser confundido, entretanto, com um negócio humilde. “O que chamam de armarinho está mais para uma loja sofisticada de shopping, que vende roupas e tecidos importados. Imagino Eduardo como um homem extremamente sedutor, que falava francês fluentemente. Isso era ainda mais importante para o comércio do que falar inglês hoje”, explicou.

A partir deste armarinho, os negócios se desenvolveram em diferentes ramos. Gaffré era o gênio da tríade, com uma capacidade ímpar de multiplicar dinheiro. Esta multiplicação atingiu um novo patamar em 1888, quando ganharam a concessão para construir e operar o porto de Santos durante 92 anos. “A partir daí, eles passam de ricos a muito ricos. Eles construíram o porto, no entanto, sem um único centavo público – e é necessário lembrar que a engenharia brasileira não era a mesma coisa de hoje”, afirmou.

Segundo Clóvis, a partir da construção do porto de Santos, a família Guinle começará a mostrar uma atuação empresarial diferenciada: doarão dinheiro para pesquisas de Carlos Chagas e pagarão a seus funcionários salários muito acima da média. Esse tipo de comportamento, de acordo com o historiador, seria definido por alguns como um “fordismo antes do fordismo”.

JPEG - 131.8 kb
Companhia docas de Santos seria a primeira grande realização dos Guinle [Foto: Anônimo, 1901/acervo do Instituto Moreira Salles].

Clóvis afirmou este senso de responsabilidade social foi transmitido à notável geração seguinte, formada por cinco homens e duas mulheres: Eduardo, Guilherme, Carlos, Arnaldo, Octávio, Celina e Heloísa.

O primogênito, Eduardo, deixou como grande legado para o Rio o Palácio Laranjeiras, hoje localizado, justamente, no Parque Guinle. De acordo com o historiador, este mesmo palácio, entretanto, significará a “falência moral e ética” do empresário.

“O Eduardo ficará maluco com a construção do palácio. Ele não tinha dinheiro e era acossado por credores. Depois disso, será alijado do poder pela doca de Santos e começa a vender obras fora do Brasil. Irá se casar com a prima-irmã, o que acho supermoderno, e começará a vender obras de arte fora do país, para credores não se apossarem do dinheiro. Envolve-se numa trama com muito dinheiro e muita maluquice”, afirmou.

A despeito do trágico fim do empresário, seus irmãos, todavia, continuaram a tocar os negócios pela cidade. Este é o caso de Arnaldo Guinle, cujo maior legado é a sede do Fluminense. “Sou Flamengo, mas esta sede devia ser tratada como uma joia da arquitetura da cidade. As Laranjeiras são um estádio charmoso e acolhedor. Além disso, o campeonato que acontece ali em 1919 é fundamental para popularizar futebol no Brasil, pois, até 1920, não estava claro qual seria o esporte a se tornar o mais popular do país”, disse Clóvis.

JPEG - 182.3 kb
Palácio Laranjeiras: Construção significou "falência moral e ética" de Eduardo Guinle e depois foi adquirido pelo governo Vargas.

Empreendedorismo semelhante também se encontra em Carlos Guinle, pai de Jorginho (“o antiguinle, que não trabalhou, nunca fez nada”). De acordo com Clóvis, Carlos percebeu a vocação do Rio para o turismo e os esportes, trazendo um circuito de corridas de carro para a cidade – o que, mais tarde, ajudaria na construção do Jóquei Clube, na Gávea – e se envolveu na construção do Copacabana Palace.

Para Clóvis, o Guinle de maior destaque talvez seja Guilherme. De “péssimo aluno e patinho feio”, o segundo irmão na linhagem se tornará um grande empresário a partir da decadência do irmão Eduardo. E é nele que diversas interseções entre as histórias de Getúlio, da família Guinle e do país se encontram.

De acordo com o historiador, foi na casa de Guilherme que Getúlio se reuniu com o empresariado para expor o plano da CLT. O único a apoiar o presidente seria Guilherme, “que já praticava um fordismo avant la lettre”. O empresário também foi fundamental para conseguir apoio e capital americano para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), outro marco dos anos varguistas.

Não se deve pensar, entretanto, que a relação entre a família e o presidente estivesse livre de eventuais conflitos. Como explicou o pesquisador, os dois “bateriam de frente quanto ao petróleo”: “Ninguém acreditava que existisse petróleo no país. Guilherme insistiu que havia petróleo e gastou rios de dinheiro até encontrar – para que ele fosse então estatizado”.

Clóvis lembrou ainda duas obras da família Guinle que sobreviveram apenas devido a Vargas. A primeira, o Palácio Laranjeiras, adquirido pelo governo. A segunda, a Ilha de Brocoió, na Baía de Guanabara, onde outro dos irmãos, Octavio, construiu mais uma grande residência, hoje abandonada.

Uma espécie em extinção

A participativa plateia lembrou de outros legados de Vargas e dos Guinle para o Rio e para o Brasil, incluindo diversos outros pontos de junção entre os dois. Lembrou-se, por exemplo, que a sede do Iphan, fundado pelo presidente, funciona onde um dia esteve a companhia Docas de Santos no Rio; que o Museu Imperial, criado por Vargas, teve a maior parte de seu acervo doado pelos Guinle; este é também o caso do Museu Histórico, criado pelo presidente com doações preciosas de Guilherme.

Paulo Knauss, professor de história da Universidade Federal Fluminense, observou que estes exemplos demonstram que a parceria entre Getúlio e os Guinle também se dava pela cultura e pela preservação do patrimônio. Atitudes hoje raras, de acordo com o historiador.

JPEG - 186.7 kb
Paulo Knauss, professor de história da UFF: ". Essas figuras mantêm viva uma ideia de elite que era capaz de acreditar no Brasil” [Foto: Pedro de Souza].

“Guilherme Guinle passou a vida colecionando, mas também enriquecendo coleções públicas. Esses personagens representam uma época em que o Brasil constituiu uma elite que gostava e acreditava no país. Uma elite que, sobretudo, arriscava inovar em projetos constituidores de um projeto de nação. Hoje temos sensação de que nossa burguesia se torna uma burguesia argentina, que facilmente muda de interesses. Essas figuras, por outro lado, mantêm viva uma ideia de elite que era capaz de acreditar no Brasil”, resumiu.

  • Compartilhe:

Mais OsteRio

"Precisamos mudar o CEP do emprego"

Como diminuir as desigualdades gritantes na Região Metropolitana do Rio? No OsteRio desta terça-feira (29/3), um caminho ficou claro: mais centros e oportunidades, menos distâncias e deslocamentos

OsteRio discute as fronteiras da desigualdade no Rio metropolitano

No evento, serão apresentadas as atualizações do Mapa da Desigualdade, produzido pela Casa Fluminense, que mostra as disparidades da região a partir de 21 indicadores sobre 7 temas-chave

Eduardo Paes faz balanço de seus oito anos como prefeito

Prefeito responde a perguntas da plateia sobre sua gestão, em encontro promovido pelo Vozerio em parceria com Iets

Ouça as vozes do Rio

Preencha o formulário abaixo para assinar o boletim do VozeRio

Mais sobre política

Livro aborda transformações da Baixada Fluminense durante a ditadura

6 momentos do Rio em 2016

Testemunhas contam o que viram de um dos anos mais agitados dos últimos tempos

De mulher para mulher: ocupação feminista no Rio

Rede Agora Juntas encerra neste sábado (17), na Glória, experiência que debateu direitos das mulheres

Prefeito eleito de Caxias é condenado a 7 anos de prisão por crime ambiental

De acordo com STF, Washington Reis (PMDB) se envolveu na criação de um loteamento ilegal quando era prefeito da cidade

Mais sobre história

Até o fim do mês, moradores e historiadores relembram relação entre favela e ditadura em curso sobre o tema

Viagem por um Rio passado e imaginário

Mapa interativo criado por universidade americana mostra a história do Rio no tempo e no espaço

Negros, libertos e monarquistas

Existência da Guarda Negra, irmandade secreta de negros surgida após promulgação da Lei Áurea, é um episódio esquecido da história do Brasil

Memórias olímpicas para o futuro

Projeto da Fundação Casa de Rui Barbosa reunirá documentos para contar a história da Rio 2016

Mais sobre Trabalho

Curso de idiomas ajuda refugiados a tentar um recomeço na região metropolitana do Rio
Realização:
Iets
Patrocínio:
Universeg
Apoio:
Biblioteca Parque Estadual Biblioteca Parque Estadual
 
Licença Creative Commons
Desenvolvido em SPIP pela Calepino