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Patrimônio cultural 28 / 10 / 2015| Daniel Gullino

Vaz Lobo quer reprise do seu cinema

Em meio a recordações nostálgicas, moradores de Vaz Lobo, na Zona Norte, reclamam do abandono do edifício onde funcionava cinema do bairro, mas divergem sobre o destino do imóvel. Um projeto pretende transformá-lo em centro cultural, mas há quem prefira um supermercado

"Todo mundo fala que aqui já foi bem melhor", afirma o estudante Lucas Lopes, de 17 anos. Ele se refere a Vaz Lobo, na Zona Norte, onde sempre morou. Outros moradores têm opiniões semelhantes: um diz que o bairro virou um local de passagem. Outra alega haver gente que nunca ouviu falar de lá. A percepção de todos é a mesma: os tempos áureos do bairro são coisa do passado.

Mas um grupo de moradores trabalha para superar a nostalgia e trazer nova vida ao bairro, através da recuperação de um marco local: o Cine Vaz Lobo, inaugurado em 1941 e fechado quarenta anos depois. Há preocupações, contudo, sobre a maneira como essa revitalização será feita, além de divergências a respeito do melhor destino para o imóvel.

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Inauguração do cinema, em 1941, contou com a presença de Darcy Vargas, então primeira-dama

Tudo começou em 2010, com a divulgação de que a Prefeitura pretendia demolir o prédio do cinema para a construção do Corredor Transcarioca, do BRT. Alguns moradores se reuniram e fizeram um abaixo-assinado contrário à decisão. Nascia ali o ’Movimento Cine Vaz Lobo: Preservação, Cultura e Memória’. O grupo conseguiu duas mil assinaturas contra a demolição do cinema, entregues ao poder público junto com o projeto de um novo trajeto para o corredor exclusivo de ônibus. A articulação deu certo: a Prefeitura revogou a decisão, mudando o traçado do BRT.

Ao longo dos anos, o grupo se expandiu e formou o Instituto Histórico Geográfico da Baixada de Irajá (IHGBI), que conta hoje com dezenas de apoiadores. Em 2014, outra vitória: foi decretado o tombamento provisório do imóvel do cinema.

O objetivo do grupo, então, passou a ser recuperar o prédio. Em maio deste ano, um novo projeto foi elaborado e entregue à Secretaria Municipal de Cultura. O documento ainda está sendo analisado.

Enquanto isso, o imóvel faz parte de um levantamento realizado pela RioFilme sobre os cinemas de rua na Zona Norte. Também estão estão na pesquisa o Cine Cachambi; o Cine Guaraci, em Rocha Miranda; o Cine Madureira; o Cine Rosário, em Ramos; e o Tijuca Palace.

“O objetivo é entender quais desses cinemas podem ser revitalizados”, explica Mariana Ribas, presidente do órgão. Serão considerados aspectos como o custo da reforma, se os proprietários têm a intenção de vendê-los e a importância para o entorno. A previsão é que o estudo seja entregue à secretaria — que decidirá o destino dos prédios — até o final deste ano.

Apesar da incerteza, os integrantes do IHGBI estão confiantes. “Não tenho dúvidas de que vai sair, de uma forma ou de outra”, garante o analista de sistemas Ronaldo Luis Martins, de 73 anos, um dos fundadores do grupo.

O advogado Gilson Gusmão, 71, acredita que o processo até aqui já foi positivo por atrair atenção para o tema. "As pessoas passaram a prestar mais atenção nos cinemas de rua", comemora.

Objetivo é construir Centro Cultural

A inauguração do cinema, em 1941, foi considerada um marco do desenvolvimento do bairro. A sala, com 1.800 lugares, era uma das maiores da cidade, à época. Até mesmo a então primeira-dama, Darcy Vargas, esteve presente na cerimônia de abertura.

Além disso, o local foi utilizado para os mais diversos fins, como bailes de Carnaval, centro de apuração de votos, formaturas etc. Do lado de fora, também ocorreram desfiles de Carnaval, além de comícios políticos e até uma festa de comemoração pelo fim da Segunda Guerra Mundial.

O Cine Vaz Lobo, contudo, não resistiu à decadência dos cinemas de rua, fechando as portas em 1981. Ainda assim, conseguiu escapar do destino de muitos estabelecimentos semelhantes, que foram demolidos ou vendidos para instituições religiosas. Apenas chegou a ser usado, por um breve período, como estacionamento de carros. “Edir Macedo ficava louco para ocupar isso aqui”, relata Gusmão, referindo-se ao líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

O projeto entregue pelo IHGBI propõe transformar o local em um Centro Cultural, que teria uma sala de cinema e teatro com 700 lugares, além de espaços multiuso para palestras, seminários e exposições. O documento também propõe o tombamento definitivo do prédio e a desapropriação do imóvel.

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Projeto entregue pelo Instituto Histórico Geográfico da Baixada de Irajá à Secretaria Municipal de Cultura

Gusmão sabe que não será uma tarefa simples. “Vai ser uma obra grande e cara. É como se tivesse que construir outro [prédio]”, afirma. Existe a preocupação, contudo, de manter o estilo art déco da construção.

Um dos argumentos favoráveis ao projeto é que faltam equipamentos culturais na Zona Norte. "Além de ser um novo ponto cultural no subúrbio, é uma região estratégica, pois o local tem ligação para vários bairro", avalia Cleydson Garcia, estsudante de arquitetura e integrante do movimento.

“Temos um fluxo muito forte de possíveis usuários, uma população muito ativa, em busca de lazer. As pessoas de poder aquisitivo mais baixo precisam ter acesso a esse tipo de lazer e de cultura”, reforça Gusmão. Outro objetivo do grupo é construir um acervo da história do cinema. Para isso, eles pedem doações de fotos e outros documentos.

Interesse comercial pode ser um problema

Reabrir um cinema não é, contudo, um processo simples. Quem faz o alerta é Talitha Ferraz, professora de Comunicação da ESPM-RJ e pesquisadora da Universidade de Ghent, na Bélgica. Talitha destaca que a maneira como a revitalização é feita é determinante no resultado final.

Em sua pesquisa, Talitha compara a reabertura do Imperator, no Méier, a iniciativas semelhantes na Bélgica. Ela explica que no país europeu há uma preocupação maior com os filmes exibidos: a prioridade é para produções belgas e, em segundo lugar, para filmes alternativos, com menor potencial comercial.

Isso não ocorre, no entanto, quando os responsáveis pela reforma são grandes empresas. “O papel da reativação não pode ser deixado nas mãos da iniciativa privada. Você vai ter uma cinema de shopping na rua”, ressalta. Talitha também afirma que, mesmo na RioFilme, em muitos casos, predomina uma visão de mercado. E reconhece que é um problema difícil de se solucionar. “Quem é que tem dinheiro para pegar esse projeto?”, questiona.

Ela acredita, contudo, que um aspecto fundamental é ouvir a população, para saber o que eles querem do local. “O mais importante é definir para onde se quer ir”, aponta.

Na memória, Bruce Lee, chanchadas e Grande Otelo

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Gilson Gusmão, Roselane Garcia, Maria Celeste Ferreira e Cleydson Garcia são alguns dos integrantes do Movimento Cine Vaz Lobo

O Cine Vaz Lobo deixou boas recordações entre seus frequentadores. Para Gilson Gusmão, os filmes mais marcantes foram as chanchadas. “Namorava aqui à beça”, relembra. Outra memória marcante é do dia em que foi pego por Antônio Mendes Monteiro, fundador do cinema, fumando no banheiro com um grupo de amigos. “Levei cascudo do lanterninha”, conta.

Já Roselane Garcia, professora de Ciências de 59 anos, lembra que os longas do ator Bruce Lee foram uma febre na região, incentivando até mesmo a abertura de academias de kung fu.

Kátia Leite, que trabalha em um brechó próximo ao prédio, tem uma memória especial: ela acredita que o Cine Vaz Lobo foi o primeiro cinema que visitou na vida. O filme? A vida de Jesus Cristo, de 1971 — quando ela tinha 11 anos. Aílton Rodrigues, por sua vez, lembra principalmente os filmes da dupla Oscarito e Grande Otelo. “Era um grande divertimento”, recorda.

Reabertura do cinema não é prioridade entre moradores

Os moradores de Vaz Lobo querem que algo seja feito no edifício, mas a reabertura do cinema não é unanimidade. Aílton, por exemplo, é um beneficiário direto: ele vende água de coco ao lado do prédio. Embora afirme que a reabertura seria positiva, ele prefere um supermercado no local, já que mora perto. “Para mim, acho que seria melhor”, avalia.

Já Lucas Lopes, estudante que trabalha em uma barraca de açaí no mesmo local, o cinema não faz diferença, já que é possível ir a um shopping. O importante, para Lucas, é algo que aumente a circulação de pessoas. “Tem que fazer alguma coisa ali. É um espaço muito grande para ficar sem aproveitar”, afirma o rapaz, acrescentando que o prédio abandonado também prejudica a paisagem.

A opinião é semelhante à de Kátia. “Tem que ter alguma coisa, seja o que for. É preciso dar vida àquilo ali, que está morto”, diz, reclamando do “elefante branco”. Ao afirmar que não vê diferença entre cinema de rua e de shopping, ela se corrige, lembrando uma vantagem do segundo: o ar-condicionado.

Enquanto a questão não é resolvida, os papéis vão se inverter: anos após exibir incontáveis filmes, o cinema é o objeto central do curta Cine Vaz Lobo: O Filme. O documentário, dirigido por Luiz Claudio Motta Lima, será apresentado pela primeira vez no dia 6 de novembro, no festival Curta Cinema. Para uns, será apenas o registro de um passado de distante. Para outros, uma amostra do cinema que pode, em breve, estar de volta.

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