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Imigração 8 / 12 / 2015| André Costa

"Você era um estranho e o Brasil o acolheu"

De 1883 a 1966, a Hospedaria da Ilha das Flores, em São Gonçalo, recebeu milhares de imigrantes que chegavam ao Brasil. Hoje um museu a céu aberto, o espaço convida à reflexão sobre como recepcionamos os que migram para o Brasil. [Foto: Refeitório da Ilha das Flores, sem data. Coleção Leopoldino Brasil, cedida pelo Centro de Memória da Imigração Ilha das Flores].

Minutos depois de pôr os pés em terra firme no Brasil, a ucraniana Irene Popow ouviu ecoar o som de um piano. Curiosa, a menina de 14 anos, recém-chegada de um campo de refugiados na Alemanha, aproximou-se da casa de onde vinha a música. Viu um homem ir até o portão: “Ele perguntou: te gustas la música? Viene, viene”, lembra ela. “Quinze minutos depois de chegar ao Brasil, eu estava dentro da casa de um brasileiro. Em sete anos na Alemanha, jamais um alemão me convidou para uma visita.”

O episódio aconteceu em 1949, na Hospedaria da Ilha das Flores, em São Gonçalo — um espaço financiado pelo governo brasileiro e propício a este tipo de encontro. De 1883 a 1966, a hospedaria abrigou dezenas de milhares de estrangeiros oriundos de várias partes do mundo, da Itália ao Japão, da Rússia à Espanha, da Alemanha à Síria. Nas primeiras décadas do século XX, os alojamentos chegaram a hospedar simultaneamente 3.500 pessoas, que chegavam ao Brasil com a esperança de reconstruir suas vidas e encontravam na Ilha das Flores instituições e pessoas dispostas a ajudar na empreitada.

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Desembarque na Ilha das Flores. Coleção Leopoldino Brasil, sem data.

Hoje, duas organizações funcionam no local que, a esta altura, já deixou de ser uma ilha, tendo sido anexado ao continente por um aterro em 1985. Desde 1971, o espaço é uma das sedes do corpo de fuzileiros navais da Marinha brasileira, que montou ali uma base aproveitando boa parte das instalações do antigo centro de imigração. Já em 2012, um grupo de pesquisadores da história de São Gonçalo inaugurou um museu a céu aberto sobre os antigos imigrantes que por ali passaram, chamado Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores.

O museu, patrocinado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), assinou no começo de novembro um termo de cooperação técnica com o Museu de Ellis Island, em Nova York, porta de entrada de imigrantes nos Estados Unidos. No último dia 27 de novembro, foi visitado por uma comitiva dos Jogos Olímpicos de 2016, que foi conhecer o centro cultural para inclui-lo entre as atrações que serão divulgadas ao público da competição.

Essa recente visibilidade do espaço é celebrada pelos gestores do museu, que apostam na possibilidade de obter mais recursos e visitantes. “Estamos fazendo um movimento para incrementar o museu”, afirma o professor de história da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Luís Reznik, um dos responsáveis pelo projeto. “Quem sabe conseguimos entrar no circuito cultural do estado do Rio”.

"Você era um estranho e o Brasil o acolheu"

A seu favor, Reznik tem a fascinante história da Ilha das Flores e da imigração para o Brasil. Na segunda metade do século XIX, sobretudo em suas duas últimas décadas, um grande volume de migrantes europeus aportou nas Américas, para onde vinham principalmente com o objetivo de trabalhar na lavoura.

As recentes abolição do tráfico negreiro (1850) e a Lei do Ventre Livre (1871) geravam uma maior demanda por mão de obra, e para muitos estadistas e intelectuais a modernização do Brasil dependia de incorporar à população mais brancos, supostamente mais escolarizados. Os imigrantes que vinham para o Brasil, portanto, tinham um duplo propósito aos olhos do Estado: fornecer mão de obra e branquear a população.

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Desembarque de imigrantes na hospedaria da Ilha das Flores. Coleção Leopoldino Brasil, sem data.

A Hospedaria da Ilha das Flores foi a primeira instituição oficial para recepção de imigrantes criada pelo governo imperial. O lugar se destinava a receber, acolher e encaminhar os recém-chegados para locais de trabalho. Os imigrantes ficavam em média entre oito e dez dias na hospedaria e eram responsáveis apenas pela higiene de suas roupas — todos os outros serviços lhes eram oferecidos.

Mais de 70% dos imigrantes que vieram para o Brasil durante a década de 1880 chegaram ao país pelo porto do Rio de Janeiro. A maioria deles não tinha contatos no país e esteve em algum momento numa hospedaria. Até o surgimento da Hospedaria do Brás, em São Paulo em 1887, a recepção se dava sobretudo na Ilha das Flores, que, em sua inauguração, contava com um dormitório com capacidade para mil pessoas. Entre 1883 e 1890, mais de 180 mil imigrantes passaram por ali, dos 450 mil que ingressaram no país.

Duas grandes levas imigratórias marcaram a história da hospedaria: a primeira começou na inauguração e seguiu até o final da década de 1920, com flutuações neste período — como, por exemplo, durante a Primeira Guerra, quando se reduziu o número de hóspedes. Nesse tempo, a Ilha das Flores recebeu sobretudo imigrantes que chegavam para trabalhar na agricultura, oriundos de países como Itália, Portugal e Espanha.

Foi também o período em que a Hospedaria floresceu: em 1907, três outros dormitórios somaram-se ao primeiro, aumentando a capacidade do lugar de mil para três mil pessoas. Também foi durante esta época que foi inaugurada uma grande caixa d’água, ainda hoje de pé, embora não mais utilizada.

A segunda grande leva de imigrantes chegou após a Segunda Guerra Mundial, provinda sobretudo de países do Leste Europeu. Após a viagem de barco, os viajantes passavam por uma inspeção sanitária, com o propósito de verificar se eram portadores de doenças contagiosas — em caso positivo, seguiam para a Ilha Grande.

Os demais iam para a Ilha das Flores, em embarcações que transportavam de quinze a vinte passageiros. Lá, recebiam roupas de cama e sabão. Os alojamentos eram separados por gênero e condição civil, com acomodações para jovens solteiros, homens casados, mulheres solteiras e mulheres casadas com filhos pequenos.

Após receberem uma refeição, os novos habitantes do Brasil ouviam uma palestra, na qual aprendiam que deveriam encontrar um emprego em até oito dias. Estes ofícios eram buscados nos municípios ao redor da ilha — São Gonçalo e Niterói — e na capital. Por vezes o próprio empregador ia à hospedaria, em busca de trabalhadores.

No cais da frente, principal porta de entrada da Ilha, uma inscrição em vários idiomas resumia o discurso oficial do Estado brasileiro para aqueles que chegavam: “Você era um estranho e o Brasil o acolheu”.

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Refeitório da hospedaria, sem data. Coleção Leopoldino Brasil.

História de superação

A despeito das normas oficiais, há relatos de pessoas que permaneceram na ilha por muito mais tempo do que o determinado, vivendo experiências amenas e agradáveis. Este é o caso de Irene Popow, a menina que ouviu o piano tão logo desembarcou na Ilha das Flores (o piano, no caso, era tocado pela filha do farmacêutico da hospedaria).

Irina Popowa — como se chamava até o oficial de imigração mudar-lhe o nome — chegou ao Brasil acompanhada do pai, da mãe e da irmã mais nova. Sua família permaneceu na ilha das Flores por cerca de seis meses, porque seu pai, um engenheiro de mineração, demorou até conseguir um emprego em seu campo de especialização.

A ucraniana-brasileira recorda-se da viagem de barco até o Rio: “Viemos para o Brasil como um improviso, porque, na última hora, a Argentina não nos aceitou. Mamãe não sabia nada sobre o país, e a todo momento repetia ‘Brasil, que exótico. Que exótico’”, diz. “Quando chegamos, era mês de julho, e o inverno estava tão quente quanto foi este último. Minha mãe ainda repetia ‘que exótico, que exótico’, mas já estava encantada. Quando finalmente desembarcamos na Ilha das Flores, ela parou e fez ‘o gesto do Papa’: se ajoelhou, abriu os braços e beijou o chão”.

Irene não ficou à toa na Ilha. Poliglota — aos 14 anos, além do russo, falava também alemão, espanhol, francês e inglês, idiomas que aprendeu no campo de refugiados —, acompanhava o pai até a capital para atuar como intérprete enquanto ele buscava emprego.

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Antiga casa do farmacêutico, hoje Batalhão de Viaturas Anfíbias.

As atividades não a impediam de se divertir na Ilha das Flores: “Caçávamos siris”, conta ela. “Faz-se assim: joga-se um pouco de comida na água e então se espera o bicho pegar a isca. Quando ele aparece, o capturamos com uma redinha. Então fazíamos uma fogueira em qualquer parte e comíamos”.

Sua descrição da Ilha das Flores é a de uma ilha paradisíaca, em uma Baía de Guanabara ainda limpa, onde a camaradagem e a hospitalidade eram a regra. Reportagens do período registram o mesmo cenário — mas nem sempre sem escândalo: um artigo da Revista da Semana do começo de 1950, período em que Irene possivelmente ainda estava lá, afirma que na Ilha das Flores um

"exército de párias goza as delícias da paisagem, dos banhos de sol e mar, dos passatempos esportivos, dos ócios oficiosos, dos jogos de azar, em suma, do incrível protecionismo com casa, comida, roupa lavada, diárias, pesca, caça, mulher e outras coisas coisas de colher. Até agora nada de prático e útil fizeram para que aceitemos suas existências de boas-vidas".

Não se sabe qual foi o fim de toda a formidável malta de mandriões descrita na reportagem, mas, no caso da família de Irene, os “párias” viriam a se estabelecer primeiro em Criciúma e depois em Niterói. Seu pai trabalharia como engenheiro por toda a vida, e sua mãe, arquiteta de formação, também contribuiria no orçamento familiar.

A própria Irene trabalhou durante décadas como psicanalista e teve seis filhos, todos bem-sucedidos, a maioria no ramo audiovisual. O mais notável deles é o caçula, o cineasta Andrucha Waddington.

A história de sucesso, segundo Luís Reznik, é a regra. O historiador e a equipe do museu já entrevistaram cerca de 40 pessoas, entre imigrantes, ex-funcionários e filhos de funcionários.

“O que ouvimos são histórias de superação”, diz Reznik. “O que nos deixa até curiosos: o que aconteceu com aqueles que se deram mal?”.

Página infeliz da nossa história

Além de centro de recepção de imigrantes, a Ilha das Flores também teve outros usos ao longo de sua história, como centro de recepção para brasileiros refugiados de secas no Nordeste, prisão política para integrantes da Revolta Constitucionalista de 1932, prisão de guerra durante a Segunda Guerra e, finalmente, prisão e centro de tortura durante o regime militar.

Em outubro de 2014, uma comitiva da Comissão Nacional da Verdade esteve na ilha, identificando os edifícios que serviram como centro de tortura. Entre os presos que estiveram ali figuram nomes como o antropólogo Darcy Ribeiro, o jornalista Elio Gaspari e o político Fernando Gabeira.

Os locais que serviram como centros de tortura não são acessíveis a visitantes do museu hoje, e o assunto em geral é mencionado apenas en passant na maioria dos tours. “Nosso foco é fundamentalmente na imigração. [Em relação à tortura], não escondemos, mas também não evidenciamos”, diz Reznik.

Um museu possível

O museu tem como principal atrativo a arquitetura de época, a paisagem natural e as visitas guiadas por monitores, ligados ao programa de história da Uerj. Ao chegar, os visitantes assistem a um documentário que reúne depoimentos de pessoas que viveram na Ilha, tanto imigrantes quanto ex-funcionários. Depois começa o tour propriamente dito, que tem cinco paradas, assinaladas por totens explicativos.

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Antigo Cais do Bote: área hoje é aterro.

Primeiro se vai ao Cais do Bote, criado para normatizar o acesso de empregadores à ilha. A guarita criada onde ficava o cais localiza-se na parte da ilha mais próxima ao continente antes do aterro. Uma chaminé ainda existente e presente em fotografias permite que o visitante se localize.

Outras paradas são no cais da Baía de Guanabara, em frente à antiga capela e onde estavam os três alojamentos em 1907. Estes compõem a parte mais interessante do tour: as edificações, providas de certo refinamento estilístico, permanecem bastante conservadas. Há ainda uma exposição sobre os funcionários que costumavam morar ali, em um prédio.

O museu, todavia, é bastante simples, o caminho encontrado para lidar com o orçamento limitado. Faltam objetos da época em que a hospedaria funcionava, roupas, móveis e documentos, artefatos que deem vida às histórias contadas pelos monitores e assistidas nos vídeos. Outra limitação é que a base dos fuzileiros navais está em pleno funcionamento. Por isso, não é possível visitar o interior da maioria das construções.

A despeito dessas restrições, o museu permanece hoje um dos únicos equipamentos culturais de São Gonçalo e do norte fluminense. Outros patrimônios históricos, como a Fazenda Colubandê, marco da arquitetura colonial, encontram-se em estado de abandono total ou parcial.

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Antigo alojamento de imigrantes, hoje dormitório de fuzileiros navais.

Planos de expansão não faltam para o futuro do museu. Para 2016, deve ser inaugurada uma exposição interativa no espaço, financiada com recursos da Faperj, onde hoje há a retrospectiva dedicada aos ex-funcionários. A equipe responsável pelo projeto também gostaria de incluir a Ilha nos roteiros dos que visitam os fortes históricos de Niterói ou passeiam de barco pela Baía da Guanabara.

Segundo a equipe, fora a exposição interativa, cada uma destas inovações exigiriam maior investimento do poder público, uma vez que a renda disponível hoje não é suficiente para tal. O projeto de inclusão no roteiro da Olimpíada de 2016 também implicaria em algumas adaptações, como, por exemplo, o treinamento dos monitores em inglês.

Enquanto estes aperfeiçoamentos não acontecem, o historiador Reznik aponta outras funções sociais que o museu da Ilha das Flores pode exercer ainda hoje e que devem servir como incentivo para sua expansão:

“O Brasil voltou a ser um país de imigração nos últimos dez anos. O que talvez seja interessante pensarmos é que hoje não há estruturas de recepção – quem tem feito a recepção são igrejas e ONGs”, diz Reznik. “Este pessoal que chega, no entanto, muitas vezes não tem sociabilidade no Brasil, e precisa de alguém para recebê-los. Pensar sobre estruturas de recepção do passado nos ajuda a nos sensibilizar sobre estruturas de recepção possíveis no presente”.


serviço

Centro de Memória da Imigração de Ilhas das Flores
Quando: Visitas às terças, quintas, sábados e domingos. Agendamentos pelo site.
Gratuito.

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