10 Perguntas

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10 Perguntas 14 / 04 / 2016| Isabela Fraga

Volições de Albertina

"— Como me irrita essa tua passividade, aprendida em um convento. Aqui, em casa, esqueceu-se de que sou mulher... Querem-me sem inclinações, sem opinião, igual a todos. Meu Deus! É preciso que eu siga a trilha comum, que diga sim, após o sim de toda uma geração, que tenha o pensamento que vinte mil cérebros já elaboraram..."

As frases acima são um trecho do romance Exaltação, publicado há exatos 100 anos pela escritora carioca Albertina Bertha de Lafayette Stockler. Não se sinta mal se você nunca ouviu falar de Albertina — com certeza não é o único. Como tantas outras escritoras até meados do século XX, ela e sua obra foram apagadas da história da literatura brasileira. Parte desta lacuna, contudo, está prestes a ser preenchida: nesta sexta-feira (15/4), será lançada uma reedição de Exaltação organizada por Anna Faedrich durante uma pesquisa de pós-doutorado na Biblioteca Nacional. Os interessados na leitura desta ardente história de amor devem se munir também de um dicionário, necessário para enfrentar o texto carregado de palavras incomuns como "volições", "esto" e "glauca".

Integrante da elite intelectual carioca, Albertina escreveu outros quatro livros após Exaltação — dois deles ensaios filosóficos. Colaborava com diversos jornais e revistas, onde falava de divórcio, guerra e sobre o lugar da mulher. Foi convocada para entrevistas e conferências ao longo de sua vida — uma delas, inclusive, sobre Nietzsche, na qual falou para uma plateia numerosa. Era, em suma, uma intelectual pública, e, possivelmente, uma das poucas da época. Exaltação, seu primeiro livro, recebeu dezenas de críticas e elogios e, até 1926, tinha vendido 25 mil exemplares.

Conversamos com Anna sobre Albertina, o livro reeditado e sobre a importância de se redescobrir as escritoras brasileiras que foram esquecidas pelo mercado e pela academia.

  1. Afinal, quem é Albertina Bertha? Ela é uma escritora carioca que nasceu em 1880 e publicou o primeiro livro, Exaltação, em 1916. Era filha do Conselheiro Lafayette Stockler e casou-se com o republicano histórico Alexandre Stockler. O que eu acho interessante é que tanto o pai quanto o marido incentivavam que Albertina escrevesse. Quando entrevistei a família, eles enfatizaram bastante isso. Ela era uma mulher abastada, que não precisava trabalhar. Algumas feministas criticamo fato de ela não ter falado de trabalho, que é uma questão importante para o feminismo. Mas ela, é claro, não se colocava como feminista e eu nem gosto de usar esse termo para defini-la, porque é preciso pensar no que ele quer dizer. Ainda assim, ao mesmo tempo em que ela não precisava trabalhar, ela fala de um outro tipo de liberdade, liberdade do desejo feminino. Há trechos eróticos em Exaltação, e os outros dois romances dela são sobre adultério. Em Exaltação, a protagonista diz que quer fugir das convenções da época, que quer encontrar um amor, casar por amor etc. Isso não acontece e ela acaba casando a contragosto, por respeito aos pais. Até que ela encontra a grande paixão da vida dela, um poeta, com quem tem um caso. E o que há de avanço aí? Nesse romance já tem o adultério concretizado, não só no nível platônico. Tem a cena dela com o amante, a relação sexual.
  2. Como você a descobriu e por que se interessou pela escritora? A Albertina é um nome desconhecido. Consta apenas em alguns dicionários de literatura, na antologia Escritoras brasileiras do século XIX, de Zahidé Muzart, e também no dicionário da Nelly Novaes Coelho, O dicionário crítico de escritoras brasileiras. Desde a minha graduação em Letras, eu fazia parte de um grupo de pesquisa com a professora Ana Maria Lisboa de Mello, que pesquisa o que se chama de “romance de introspecção”. Um dos vieses desse projeto era resgatar alguns autores brasileiros esquecidos pela história da literatura, homens e mulheres. Eu fiquei responsável pela Albertina Bertha. A gente descobriu o nome dela pela leitura de um livro do Lima Barreto chamado Impressões de Leitura – no qual ele criticava bastante a Albertina e o Exaltação. Então eu li o romance e achei muito interessante. Depois fui atrás dos outros dois romances e dos livros de estudos, que também são dois. Encontrei em bibliotecas, fiz cópias. Comprei o Exaltação por um preço absurdo no site Estante Virtual. E assim fui juntando as obras. Minha dissertação de mestrado foi sobre romance de introspecção no Brasil, e minha ideia foi situar a Albertina na linha introspectiva. Como era um mestrado em Letras, foi uma análise bem formal. Analisei as técnicas de introspecção que ela usava, que eram bem inovadoras pra época — principalmente o monólogo interior. São técnicas que depois a gente vai ver em Clarice Lispector e em toda essa linhagem introspectiva que outros autores seguem.
  3. E como foi o contato com a família de Albertina? É muito difícil descobrir qualquer coisa sobre escritores que não fazem parte do cânone literário. Até localizar a família, só tinha encontrado uma fotografia da Albertina, em péssima resolução. Também havia muitas informações equivocadas sobre ela, pois as pessoas não vão às fontes primárias, só reproduzem o que outros já publicaram. Bom, eu já tinha defendido a dissertação quando finalmente consegui contato com a família. Uma das bisnetas, que se chama Beth Stockler, escreveu um livro chamado Volúpia de Voleta, em homenagem a outro romance de Albertina, o Voleta. Encontrei esse livro no Estante Virtual, onde costumava buscar livros da Albertina. Comprei e comecei a pesquisar sobre a Beth; vi que ela tinha um blog, onde escrevi uma mensagem. Nunca mais tive notícias. Até que um dia, já no doutorado na PUC-RS, a secretária do departamento me diz que tem uma pessoa no telefone para mim. Era a Beth, se apresentando, dizendo que leu a dissertação etc. A partir daí, vim para o Rio conhece-la e às outras bisnetas e netas da Albertina. Beth me deu uma cópia do romance, me mostrou os manuscritos, etc.. Tem uma parte da família que é orgulhosa da Albertina, guarda os documentos e tudo o mais. E ela me deu me deu uma foto – imagina a emoção quando eu vi a foto! Desde então, a gente não perdeu o contato.
  4. Você pretende continuar a reeditar outros livros de Albertina e de outras autoras esquecidas pela história da literatura e pelo mercado editorial? Sim. A ideia é reeditar as outras coisas da própria Albertina — não só os romances, mas também os estudos filosóficos. Era bem raro uma mulher naquela época falar de filosofia, e Albertina certa vez deu uma palestra sobre Nietzsche que ficou muito famosa. O editor da revista Cadernos de Nietzsche, da Unifesp [Universidade Federal de São Paulo], vai escrever a introdução da reedição do Estudos. Mas a próxima reedição que estou organizando ainda não é da Albertina, mas da Narcisa Amália [1852-1924], uma poetisa que nasceu em São João da Barra e viveu a vida inteira em Rezende. Narcisa e Albertina fazem parte do meu pós-doutorado na Biblioteca Nacional, por onde também vou publicar as crônicas da escritora Julia Lopes de Almeida.
  5. Como Exaltação foi recebido pela crítica da época? Como a escritora Albertina era vista pela sociedade? O livro teve seis edições e, até 1926, tinha vendido 25.000 exemplares (segundo um anúncio no jornal). E o romance já tinha sido publicado antes, em formato de folhetim, no Jornal do Commercio, sob indicação do escritor Araripe Júnior. Ele era tido como um padrinho da Albertina. Afinal, só assim para uma mulher conseguir publicar naquela época, num espaço eminentemente masculino como aquele. E foi muito aclamada. Desde 1913, 1914, os jornais já diziam: “Está para sair o livro da D. Albertina Bertha”. Também noticiaram quando ela entregou os originais para a editora. E, quando o livro foi lançado, foi aquele estouro. Teve uma recepção muito boa, várias pessoas comentaram. O Lima Barreto fez uma crítica ambígua: disse que Albertina era inteligente e culta, mas afirma algo como “mas ela só poderia falar do amor”. No geral, mesmo as críticas positivas são desencorajadoras. Fazem comentários e dizem “apesar de ser mulher”. Monteiro Lobato também publica uma pequena crítica dela. Ao mesmo tempo, Anna Ribeiro de Góes Bittencourt, voz de uma liga de mulheres católicas, fala muito mal do romance. Diz que é preciso queimá-lo, que é imoral, “não deixem suas filhas lerem” etc. Porque tem adultério, a entrega da mulher ao prazer.
  6. Na sua pesquisa, você mostra ainda que Albertina também atuava na imprensa como formadora de opinião, certo? Como era essa atuação? Ela falava do voto feminino, do divórcio, da guerra. Quer dizer, elas estava consciente das coisas que estavam acontecendo. Como lia francês e alemão, tinha acesso a muita teoria da literatura, o que no Brasil ainda era muito incipiente. Era uma mulher erudita, bastante diferente da época. Era colaboradora de várias revistas e jornais, como O Jornal, Jornal do Comércio, O País, O Malho, A Noite e Panóplia. [Em 1918], o Jornal do Comércio realizou um ciclo de conferência com 13 autores, e ela era a única mulher naquele universo masculino de conferencistas. Também era citada e entrevistada por vários veículos da imprensa da época.
  7. O resgate de Albertina Bertha parece acontecer em meio a um movimento de redescoberta e reedição de outras escritoras do começo e meados do século XX, como Maura Lopes Cançado e Adalgisa Nery. Como você vê este momento? Acho que esse resgate começou já nos anos 1980, com a Zahidé e o grupo de trabalho que ela fundou, “Mulher na Literatura”. Mas essas coisas demoram a ter visibilidade. Ou seja, é um trabalho de formiguinha, que vem acontecendo desde os anos 1980. E, agora, a gente vive num contexto em que está acontecendo uma transformação social que reflete também na questão da mulher. A ideia é que esse movimento [de resgates e reedições] preencha algumas lacunas da história da literatura. Mas o que eu vejo como pesquisadora e professora é que a gente ainda não tem uma inserção; tudo é à parte. Temos um dicionário sobre mulheres na literatura, uma história de mulheres, uma antologia de mulheres. Na universidade, pesquisamos escritoras mulheres e damos disciplinas eletivas sobre escritoras mulheres. Por isso, em todos os textos que escrevo, digo que a gente agora tem de lutar por uma inserção: reescrever a historia da literatura. Por exemplo: há uma antologia da poesia romântica brasileira organizada pelo Antônio Carlos Secchin em que ele inclui a Narcisa Amália. E, tanto no prefácio quanto na introdução, ele comenta todos os poetas, menos a Narcisa. Os poemas dela estão lá, mas ela não está inserida. Quando dou aula tanto de Romantismo, insiro algumas dessas mulheres na disciplina oficial.
  8. E está dando certo? Você tem visto alguma mudança? Sim, tenho visto retorno dos alunos e dos colegas. Vejo um movimento por parte dos professores de incluir as mulheres nos seus cursos e no futuro acho que isso vai estar mais “oficializado”. O passo seguinte é isso se oficializar na história da literatura de fato, o que é mais difícil. Mas vamos aos pouquinhos...
  9. Você acha que essas reedições de livros esquecidos são um passo nessa direção? Sim, porque você está trazendo à luz essas escritoras e suas obras. Quando a pessoa não fala daquela autora — seja um professor ou um organizador de antologia —, não é por mal, mas porque não tem acesso. É preciso haver uma pesquisa específica sobre cada autora. As reedições trazem à luz esses nomes, e as pessoas começam a conhecê-los, junto com os estudos sobre essas autoras.
  10. Qual a importância de Albertina Bertha hoje, um século depois da publicação de seu primeiro romance?
    Há uma citação dela que considero muito atual sobre a condição da mulher: “Creio não possuir qualidade alguma que me recomende como futura mãe de família... Adoro a paz, a solidão, as coisas estranhas... Sou extremamente independente. Gastarei dias a ler, estudar... Rio-me muito, digo tolices; mas também tenho melancolias impenetráveis, que me roem as próprias fontes de existência; é-me um mal ingênito.” Outro dia, publiquei isso no Facebook e muitas amigas e ex-alunas disseram que se identificavam muito. Então, quando a mulher de hoje curte e se identifica com o que Albertina diz, é porque tem ressonância. Acho que ela dialoga com o que a mulher vive e sofre em pleno século XXI. Ela fala que não se vê como mãe de família, e isso é uma questão ainda hoje — a mulher que decide não ter filho sofre preconceito e tem de se justificar ainda hoje, um século depois. Coisas bobas que a gente já deveria ter superado. Acho que a bandeira mais forte da Albertina era o estudo; o direito de a mulher estudar, ler, ser intelectual e dialogar de igual para igual com os homens. E foi o que ela fez há cem anos. Ela não é pioneira, é claro, há outras mulheres antes. Mas a Albertina ajudou a construir essa luta. E o eco que ela tem hoje significa que a luta ainda continua.
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Convidado

Anna Faedrich

Doutora em Letras (Teoria da Literatura) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), é organizadora da reedição do livro Exaltação, de Albertina Bertha, fruto de uma pesquisa na (...)

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