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Longevidade 29 / 06 / 2016| Laís Jannuzzi

Zeladores da terceira idade

Em muitos prédios, o porteiro é mais do que o profissional que vigia a entrada e recebe as correspondências. Os funcionários dos edifícios cariocas zelam pelos moradores da terceira idade, como mostrou uma pesquisa realizada em 2005. Os porteiros ouvem confidências, são incluídos em testamentos e cuidam de plantas e animais na ausência dos residentes. Para aprofundar essa interação em um país onde a expectativa média de vida é de 76 anos, o projeto Porteiro Amigo do Idoso, criado há seis anos, vem ganhando adeptos no Rio e em outras capitais.

(Fotos: Laís Jannuzzi)

Há 11 anos trabalhando em portarias de prédios pelo Rio de Janeiro, o carioca Félix Paulo Ribeiro Neto diz que sua função não é apenas vigiar a entrada e saída de pessoas no Edifício Sao José, em Copacabana: “Eu zelo pelo bem-estar do condomínio”. Regularmente, ele se dedica a cuidar dos moradores idosos. Chegou a desenvolver uma técnica para ajudar os que tem dificuldade de locomoção a subir e descer as escadas da entrada do edifício. “Eu e o idoso apoiamos uma das mãos no corrimão, a outra serve como um segundo ponto de apoio, evitando a possibilidade de ocorrer uma queda”, explica.

Dona Irene Valério tem 88 anos e reside no São José há 40. Solteira, ela considera Félix e os demais porteiros do edifício como se fossem os filhos que nunca teve. “Eu não sei bem por que, mas tenho filhos em todos os lugares. Acho que tenho açúcar”, conta aos risos. Quando quebrou o fêmur, eram eles quem ajudavam na locomoção, muitas vezes dentro do próprio apartamento. “Eu não conseguia sair da cama, e por ser pesada, as cuidadoras tinham muita dificuldade em ir ao banheiro comigo para tomar banho. Foi um dos meninos, após o expediente, que durante um ano me ajudou no trajeto quarto/banheiro.”

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Irene Valério e Félix Paulo. Conhecido como "porteiro prodígio", é considerado membro da família pela ex-cantora lírica e contadora aposentada.

Félix e Dona Irene são exemplos de uma conexão comum nas grandes cidades. Com a verticalização das cidades e o envelhecimento populacional, uma pesquisa realizada pelo Centro Internacional de Longevidade Brasil (ICL) em 2005 mostrou que porteiros como Félix são a principal conexão entre os moradores acima de 60 anos e o mundo exterior. O levantamento ouviu mais de mil idosos moradores de Copacabana e deu origem ao projeto mundial Cidade Amiga do Idoso. O projeto, desenvolvido pelo presidente do ICL e consultor da Organização Mundial da Saúde, Alexandre Kalache, ouviu 1.485 idosos em 158 grupos focais formados em 33 cidades do mundo.

Pensando nesses resultados, Kalache criou em parceria com a Bradesco Seguros o programa Porteiro Amigo do Idoso, em 2010, para capacitar os profissionais responsáveis pela entrada dos edifícios residenciais e comerciais no trato com a terceira idade. A metodologia desenvolvida pelo Senac consiste em três aulas de quatro horas de duração. Gratuitas e baseadas em jogos e simulações, elas abordam as questões do envelhecimento de forma simples.

“O objetivo é oferecer ferramentas, por isso os conceitos são bem condensados. É mais interessante um profissional que identifique a situação e saiba o que fazer do que apenas guardar teorias complexas sobre envelhecimento”, explica Wallace Hetmanek, professor do programa e psicólogo especializado na terceira idade.“O curso vai além da capacitação, ele sensibiliza”, completa. Até hoje, 1,9 mil trabalhadores já participaram do Porteiro Amigo do Idoso, que está na sua quarta temporada e foi implementado também nas cidades de São Paulo, Belo Horizonte e Vitória. Félix, do São José, foi um dos alunos. "Gostei muito de trocar informações com os outros porteiros, sobre como lidavam com as situações", disse.

O cearense Cleiton Silva, de 32 anos, conta que o curso o ajudou a ter mais iniciativa e paciência com os moradores mais velhos: “Uma das moradoras passou mal na entrada do prédio, recusou assistência e foi para casa. Na mesma hora entrei em contato com o síndico, que ficou na recepção enquanto eu subia para conferir se estava tudo bem. Ela nem conseguiu fechar a porta. Só conseguiu entrar e se sentar. Tivemos mais uma conversa e ela aceitou o socorro. Graças a Deus não foi nada demais, mas não podemos esperar para agir apenas quando for alguma coisa. O curso me ajudou muito neste tipo de situação, onde encontramos resistência”.

Kalache adverte que programas para idosos devem ser desenhados a partir das características de cada região. “É preciso ouvir o idoso e entender a sua dinâmica, para depois identificar o agente comunitário que poderá ajuda-lo. Isso varia muito num país de grande desigualdade social como o nosso”, comenta. Hetmanek também compartilha o ponto de vista: “Nos bairros periféricos, com incidência menor de prédios e um senso de comunidade forte, pode ser que a conexão entre idoso e o mundo seja o vizinho”, comenta o psicólogo.

As próximas turmas do curso Porteiro Amigo do Idoso serão de terça a quinta-feira, dias 5 e 6 de julho, em Laranjeiras. Síndicos e profissionais das portarias cariocas interessados no programa podem obter informações sobre inscrições pelo telefone do Senac: (21) 3138-1480.

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